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Existe algo curioso na maneira como Zayn Malik construiu sua carreira. Para um artista cuja voz sempre foi um dos aspectos mais reconhecíveis de sua música, sua trajetória parece ter sido menos sobre encontrar uma identidade do que sobre desmontá-la e reconstruí-la repetidamente.
Em dez anos, Zayn passou pelo R&B, pelo pop, pelo soul, pelo folk e por diferentes formas de introspecção até chegar a um lugar em que suas raízes sul-asiáticas deixaram de ser uma referência pontual para ocupar o centro de sua criação. Há uma metamorfose crescente que, nesse caso, não está apenas na forma como o som flui, mas na maneira como ele passou a entender o próprio lugar dentro dele.
A partir de uma ruptura, o britânico foi o primeiro integrante do One Direction a deixar oficialmente a boyband e tornou a saída do maior projeto pop de sua geração uma oportunidade para descobrir o que existia por trás da imagem que havia sido construída para ele. Longe das limitações criativas de um grupo, Zayn passou a ter controle sobre a sonoridade, as letras, os colaboradores e a maneira como queria apresentar sua música.
O R&B apareceu também como uma linguagem capaz de acomodar uma voz que sempre esteve entre os elementos mais marcantes do grupo formado por Simon Cowell. Quando “Pillowtalk” chegou ao mundo, em janeiro de 2016, a impressão era de que Zayn havia encontrado imediatamente uma resposta para a pergunta que rondava sua carreira solo: o que fazer depois de uma experiência construída dentro do pop de massa? A resposta veio em forma de maturidade, atmosfera sensual e uma produção muito mais interessada em textura do que em fórmulas.
O álbum de estreia Mind of Mine (2016) transformou a escolha em uma declaração artística. Zayn nunca precisou provar que conseguia cantar, o desafio parecia ser descobrir o que queria dizer com essa voz. O R&B ofereceu uma primeira linguagem para isso, aproximando-o de referências como Usher e Tupac Shakur, ao mesmo tempo em que permitia que o cantor se afastasse da fórmula pop que havia acompanhado seus primeiros anos de carreira.
Porém, havia outra camada na construção. Filho de pai paquistanês e criado em Bradford, no Reino Unido, Zayn cresceu entre referências dentro de espaços diferentes. Elementos da herança cultural do músico já apareciam em sua obra, ainda que de maneira mais discreta, enquanto sua identidade musical se formava a partir do encontro entre diferentes influências.
Se Mind of Mine apresentou um artista profundamente conectado ao R&B, Icarus Falls, de 2018, expandiu o mesmo universo em um projeto de 29 faixas, atravessado por diferentes atmosferas e texturas. O disco parecia menos preocupado com concisão e mais interessado em explorar até onde aquela nova liberdade poderia levá-lo. A partir dali, a carreira de Zayn resistiu à ideia de uma linha reta. Nobody Is Listening, de 2021, mesmo que mais tímido, expandiu ainda mais o campo de possibilidades nas tentativas de não limitar na criativa para descobrir até onde poderia levá-la sem perder aquilo que a tornava reconhecível.
Foi em Room Under The Stairs, de 2024, que tal movimento ganhou nova dimensão. Em parceria com o produtor Dave Cobb, Zayn abandonou parte da atmosfera eletrônica e do R&B que havia definido seus primeiros trabalhos para mergulhar em uma sonoridade mais orgânica, próxima do folk e do blues.
Criado ao longo de anos em seu estúdio caseiro na zona rural da Pensilvânia, o álbum surgiu de um processo mais solitário e introspectivo, com instrumentação ao vivo e escrita voltada para temas como cura, quietude e crescimento. A produção mais enxuta colocava composição, interpretação e vulnerabilidade em primeiro plano. O resultado não era necessariamente um novo Zayn, mas um artista mais exposto.
A ironia é que foi quando reduziu o tamanho de sua música que Zayn começou a recuperar uma dimensão que havia ficado distante: o palco. Antes de Room Under the Stairs, ele havia passado anos sem se apresentar regularmente e já havia falado sobre a ansiedade como uma barreira para performances ao vivo. Em 2024, porém, iniciou a “Stairway to the Sky”, sua primeira turnê solo, retomando uma relação com os palcos que parecia adormecida. A experiência abriu espaço para uma nova fase de sua carreira, agora menos preocupada em escapar da imagem do passado e mais interessada em entender o que fazer com tudo o que veio depois dela. Dentro do movimento de autonomia, KONNAKOL (2026) surgiu como um novo capítulo.
O quinto álbum na carreira coloca em diálogo mais direto com a herança sul-asiática de Zayn. O próprio título revela a dimensão dessa mudança. Konnakol é uma técnica de percussão vocal associada à música carnática do sul da Índia, na qual padrões rítmicos são articulados por meio da voz. Ele o descreve como um som que remete a um período anterior à existência das palavras. A relação com a ancestralidade também aparece na inspiração em Nusrat Fateh Ali Khan, artista paquistanês que Zayn cita como uma referência de infância.
A mudança se estende ao universo visual do projeto. A identidade construída ao redor do leopardo-das-neves estabelece uma conexão com regiões do norte do Paquistão e com ideias de força, liberdade e resistência, enquanto os elementos associados ao sul da Ásia participam da construção do álbum como um todo. Talvez seja aí que a metamorfose comece a fazer sentido, já que KONNAKOL chegou como uma tentativa de juntar tudo.
É nesse contexto que sua primeira passagem pelo Brasil como artista solo acontece em um momento particularmente simbólico. Zayn esteve no país pela última vez em 2014, ainda integrado à dimensão global do One Direction e a uma imagem que pertencia a uma fase anterior de sua trajetória. Mais de uma década depois, o cantor retornará ao Brasil sem precisar carregar consigo a narrativa construída ao redor da boyband.
No dia 10 de outubro, na Nubank Parque, em São Paulo, o público vai encontrar um artista que atravessou diferentes versões de si mesmo até chegar a um lugar em que sua música parece refletir, com mais clareza, aquilo que deseja ser.
