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A inclusão de categorias que contemplam o trabalho visual no Grammy, uma das maiores premiações da indústria fonográfica, provocou estranhamento inicial em parte do público. A pergunta surgiu de forma quase automática: por que uma cerimônia dedicada à música deveria reconhecer linguagens associadas à fotografia e ao design? No entanto, o questionamento que fica é: será possível consumir música sem, também, julgá-la pela capa?
Tal mudança pode parecer surpreendente para alguns, mas reflete uma evolução natural das formas como música e imagem se entrelaçam no consumo contemporâneo. Em um contexto dominado por plataformas digitais, onde a arte de álbum muitas vezes aparece reduzida a um ícone pequeno, a reintrodução do prêmio reforça o papel da fotografia e do design como elementos essenciais para a construção da identidade de um projeto musical.
Na primeira edição do Grammy, em 1959, a capa já era reconhecida por meio da categoria Best Album Cover, concedida a Frank Sinatra por Sings for Only the Lonely. Diante das transformações do mercado, a Academia passou a reavaliar essa estrutura, promovendo uma reorganização das categorias para refletir novas formas de consumo.
Trazendo o debate para a atualidade, os álbuns indicados a Melhor Capa em 2026 incluem “Glory”, de Perfume Genius, “Chromakopia”, de Tyler, the Creator, “The Crux”, de DJO, “Moisturizer”, de Wet Leg, e “Debí Tirar Más Fotos”, de Bad Bunny.

Fotografar uma capa de álbum é um ato que ultrapassa a função meramente ilustrativa e se consolida como parte constitutiva da obra musical. A imagem que acompanha um projeto musical atua como mediação simbólica entre o som e o público, organizando expectativas, sugerindo atmosferas e oferecendo uma chave inicial de leitura estética.
Nesse contexto, reconhecer o trabalho visual não significa deslocar o foco da música, mas ampliá-lo. Trata-se de admitir que o álbum, enquanto objeto cultural, é resultado de uma convergência de linguagens. A fotografia, em especial, ocupa papel central nesse processo: ela sintetiza estética, discurso e posicionamento artístico em um único quadro, funcionando como porta de entrada para a escuta, rompendo com o estigma de apenas um adereço estético.
Esse fenômeno se torna ainda mais evidente com o recente retorno e valorização da mídia física, especialmente do vinil. O objeto deixa de ser apenas um suporte para o áudio e passa a ser um artefato cultural completo, no qual capa, encarte e acabamento gráfico agregam valor simbólico e afetivo. O alto custo desses produtos não se explica apenas pela raridade ou pela qualidade sonora, mas pela experiência estética que oferecem.
Em um ambiente digital saturado, o retorno da mídia física não se explica apenas por saudosismo, mas pelo desejo de experiência tátil e visual mais completa. Capas em grande formato, encartes elaborados e fotografias impressas transformam o disco em objeto de culto, frequentemente exibido como peça de decoração e símbolo de pertencimento cultural.
O reconhecimento desse campo ganha ainda mais relevância na atual era da inteligência artificial e da produção acelerada de imagens. Premiar trabalhos fotográficos em um palco de alcance global reforça a importância do olhar humano, situando-se como um gesto simbólico que reafirma que a pesquisa estética e a construção de sentido continuam sendo diferenciais em um cenário de automatização crescente.
Vale lembrar que a cerimônia do Grammy, principal premiação da indústria da música, acontecerá neste sábado, 1º de fevereiro, na Crypto.com Arena, em Los Angeles, nos Estados Unidos, reunindo alguns dos artistas mais relevantes da cena musical internacional. A premiação será transmitida a partir das 21h30 (horário de Brasília) nas plataformas de streaming HBO Max e no canal de assinatura TNT.
