Bad Bunny leva o reggaeton ao maior palco do esporte mundial no Super Bowl 2026

Foto: reprodução

Bad Bunny se consolidou como um dos artistas mais relevantes da música contemporânea ao transportar o som das ruas de Porto Rico para o centro da indústria cultural global sem abrir mão de sua identidade estética, linguística e política. Ao construir uma discografia majoritariamente em espanhol, ancorada em gêneros historicamente marginalizados como o reggaeton e o trap latino, o artista rompe com hierarquias tradicionais do pop internacional e reposiciona a música latina como força central no mercado global, afastando-a do estigma periférico que por décadas limitou sua circulação simbólica.

Essa centralidade não se manifesta apenas em números de audiência ou desempenho comercial, mas na dimensão discursiva de sua obra e seu manifesto no intervalo do Super Bowl, espaço tradicionalmente associado à hegemonia cultural norte-americana, reforçando que sua atuação nos grandes palcos funciona como afirmação política e cultural ao vangloriar o espanhol, trazer referências latino-caribenhas vívidas e ampliar discussões sobre representatividade dentro da cultura pop.

Reconhecido mundialmente a partir do impacto de Debí Tirar Más Fotos, o artista porto-riquenho construiu um álbum que extrapola o formato musical e se afirma como objeto narrativo sobre a experiência latino-americana. A própria capa do disco sintetiza esse discurso ao articular símbolos afetivos: ao fundo, a plantação e a bananeira remetem diretamente a Porto Rico e à relação histórica com a terra e às marcas do colonialismo na região; enquanto em primeiro plano, duas cadeiras plásticas brancas assumem protagonismo.

Elementos que são aparentemente simples, mas carregam um imaginário coletivo profundamente enraizado na cultura latina, evocando encontros familiares, cotidianos compartilhados e afetos comunitários. A ausência de pessoas na imagem dialoga diretamente com a temática de “DTMF”, transformando o vazio em espaço de memória e saudade.

Montado no centro do Levi’s Stadium, em Santa Clara, na Califórnia, o espetáculo teve início em um cenário de plantação que dialoga diretamente com a iconografia de Debí Tirar Más Fotos, premiado Álbum do Ano pelo Grammy. Canções como “Tití Me Preguntó” e “Solita” guiaram Bad Bunny pelo palco, transportando-o simbolicamente por cenários que evocam a cultura e os espaços típicos de Porto Rico.

As participações funcionaram como chaves de leitura do projeto. Ricky Martin opera como acolhimento ao pioneirismo latino no foco global, evocando uma geração que abriu caminhos para a música latina quando barreiras linguísticas e culturais ainda eram determinantes para a circulação dos artistas. A escolha da música “Lo Que Le Pasó a Hawaii” adquire densidade política ao denunciar o apagamento histórico e cultural imposto ao Havaí, estabelecendo paralelos diretos com a experiência porto-riquenha e com outras realidades latino-americanas submetidas a lógicas semelhantes de dominação e silenciamento.

Por ora, Lady Gaga apresenta uma versão em salsa de “Die With a Smile”, estabelecendo um diálogo direto entre linguagens musicais distintas. Ao transformar um repertório originalmente associado ao pop anglófono em uma linguagem latino-caribenha, a apresentação reforça a ideia de intercâmbio cultural sem assimilação e carrega uma mensagem de harmonia e integração, reforçada simbolicamente pela encenação de um casamento acontecendo em tempo real, que dialoga com críticas sutis à segregação histórica das Américas e celebra a diversidade em união.

Durante “El Apagón”, canção cuja lírica denuncia o apagamento estrutural e as tensões sociais vividas na ilha, abandeira de Porto Rico foi posicionada no centro do gramado, o que funcionou como um gesto simbólico de alta potência política ao deslocar para o centro do espetáculo um território historicamente invisibilizado. Tal gesto dialogou diretamente com o encerramento da apresentação, marcado pela frase “Latinoamerica, seguimo aquí!”, que sintetiza a mensagem de resistência.

Em determinado momento da apresentação, é revelado a exibição do discurso de agradecimento no Grammy, transmitido por uma pequena televisão em cena. A alternância entre a imagem representativa de um garotinho e a do próprio Bad Bunny segurando o troféu de Álbum do Ano articula, de forma sensível, a relação entre origem e consagração. O recurso não opera apenas como memória pessoal, mas como alegando como o passado e o presente coexistem no mesmo quadro, revelando que a trajetória do artista não é um desvio excepcional, e sim um percurso possível.

A cena também projeta esse sentido para além da autobiografia e entra como metáfora. Nesse enquadramento, ao aproximar a imagem da infância da validação institucional máxima da indústria musical, a narrativa sugere um diálogo direto com a próxima geração. O prêmio deixa de ser apenas um símbolo de êxito individual e passa a representar a circulação de possibilidades, como se aquela conquista pudesse ser tocada e herdada. O cantor se posiciona como elo ativo na ampliação de horizontes para crianças latinas que, ao se reconhecerem naquela imagem, passam a imaginar novos futuros para si mesmas, transformando sua conquista pessoal em gesto coletivo.

No encerramento do transmitido Half Time, o artista elevou a dimensão da apresentação ao declarar “Deus abençoe a América” e nomear todos os países do continente, incluindo o Brasil, enquanto o telão exibia ‘A única coisa mais poderosa que o ódio é o amor’, em um contexto marcado por discursos de ódio e políticas de opressão contra imigrantes nos Estados Unidos. Em poucos minutos, o conceito de ‘América’ se ampliou, evidenciando que diversidade e pluralidade definem a identidade do continente e que nenhuma nação se sustenta sem ações em prol a comunidade.

Repleto de simbolismos e detalhes meticulosamente planejados, o show de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl se destaca como uma das produções mais elaboradas já realizadas em uma final do evento com 135,4 milhões de espectadores. O espetáculo combinou a cenografia cautelosa com conjuntos cuidadosamente coreografados e dança envolvente, criando uma narrativa cinematográfica que conecta tradição, memória e celebração cultural em um dos palcos mais assistidos do mundo.

Vale lembrar que, no final do mês, Bad Bunny chegará ao Allianz Parque, em São Paulo, para apresentações nos dias 20 e 21 de fevereiro, prometendo transportar para os palcos brasileiros toda a força estética e narrativa que marcou sua apresentação no Super Bowl. Os shows reforçarão a profundidade de sua turnê, ampliando a experiência musical e cultural para o público local e consolidando ainda mais sua posição como referência da música latina contemporânea, demonstrando merecer o título que carrega de Artista do Ano.

Quem estará por lá?

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Back To Top