“Cabelin de Trança”: Babu Santana, rap e a afirmação da estética preta em horário nobre

A música “Cabelin de Trança”, assinada por Gu Original, Ramaciote e Babu Santana, com produção de CP no Beat e NBEATZ, ultrapassou o espaço do streaming e ganhou um território historicamente negado ao rap e à cultura periférica: a televisão aberta, em horário nobre. Ao tocar dentro do BBB 2026, a faixa se transforma em mais do que entretenimento, ela vira símbolo.

A presença de Babu Santana no reality show não se limita à figura do artista ou do participante carismático. O ator entrou no BBB como um corpo político, um homem negro que carrega trajetória, discurso e consciência racial. Quando ele leva “Cabelin de Trança” para dentro da casa, ele não está apenas divulgando um trabalho musical: está colocando a estética negra no centro do debate popular, sem pedir licença.

A música como discurso

“Cabelin de Trança” parte de um elemento simples, cotidiano, mas profundamente simbólico: o cabelo negro. Tranças, dreads, crespos e volumes sempre foram mais do que estilo, são marcadores de identidade, ancestralidade e pertencimento. Durante décadas, esses elementos foram tratados como problema social, sinônimo de desleixo ou rebeldia, principalmente quando associados a corpos negros.

Ao transformar o “cabelin de trança” em tema musical, a faixa ressignifica esse símbolo. O que antes era alvo de repressão passa a ser celebrado como beleza, como força e como expressão cultural legítima. O rap, mais uma vez, cumpre seu papel histórico: narrar aquilo que a sociedade tentou silenciar.

Babu Santana: representatividade que incomoda e educa

Babu Santana já não é novidade quando o assunto é representatividade. Sua trajetória no cinema, no teatro e na televisão sempre esteve ligada a personagens e narrativas que escancaram a realidade do povo preto no Brasil. No BBB em 2026, ele amplia esse alcance.

Diferente de uma representatividade vazia, Babu ocupa o espaço com consciência. Ele fala, age e se posiciona como alguém que entende o peso simbólico de sua presença ali. Quando faz questão de tocar “Cabelin de Trança” e dar visibilidade aos artistas envolvidos, ele cria uma ponte direta entre o rap, a favela, a cultura negra e o grande público.

Tal gesto não é pequeno. Em um país onde a estética negra ainda enfrenta resistência em ambientes corporativos, escolares e midiáticos, ver um homem preto exaltando essa identidade em um dos programas mais assistidos do Brasil tem impacto real.

Da marginalização à tendência

Hoje, elementos da estética negra estão em alta. Tranças, roupas largas, linguagem periférica e referências africanas aparecem em campanhas publicitárias, desfiles e redes sociais. Mas a matéria-prima dessa “tendência” vem de uma história de exclusão.

“Cabelin de Trança” também funciona como alerta: não existe moda sem memória. Antes de virar tendência, essa estética foi motivo de exclusão social, violência simbólica e discriminação direta. O rap, ao trazer esse tema com naturalidade e orgulho, reafirma que a beleza negra nunca precisou de validação externa, ela sempre existiu.

Gu Original, Ramaciote e a força do rap contemporâneo

A presença de Gu Original e Ramaciote na faixa reforça a força do rap atual, que dialoga com o presente sem abandonar suas raízes. A música não surge como panfleto, mas como vivência. É o cotidiano transformado em arte, é a quebrada se reconhecendo no espelho.

A produção de CP no Beat e NBEATZ sustenta essa narrativa com uma sonoridade que conversa tanto com o underground quanto com o mainstream, facilitando o trânsito da mensagem entre diferentes públicos, da favela ao sofá da sala.

Rap em novos espaços, sem perder a essência

O rap sempre foi resistência. Hoje, ele também é ocupação. Quando uma música como “Cabelin de Trança” toca dentro do BBB, não significa que o rap foi domesticado: significa que ele atravessou os muros.

O salve dado por Babu Santana em rede nacional não é apenas um reconhecimento artístico. É um gesto de legitimação, um recado claro para milhares de jovens negros que se veem representados naquela estética, naquela linguagem e naquela história.

“Cabelin de Trança” mostra que se sentir belo, sendo quem se é, ainda é um ato revolucionário. Quando essa mensagem ecoa em horário nobre, o impacto vai além da música: ela se torna memória, referência e afirmação coletiva.

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