Sabrina Carpenter sempre teve uma relação muito natural com a grandiosidade. Seja por meio de mega produções ou de uma estética visual pensada nos mínimos detalhes, é nato da artista tal senso de ambição.
Em 2024, quando passou pelo Coachella em um dos horários mais cobiçados do festival, ela já tinha deixado no ar quase como uma promessa de que, quando voltasse, seria para assumir o posto de headliner. Nesta sexta-feira (10), esse retorno se concretizou no topo do line-up, provando que algumas eras realmente nascem para o horário nobre.
Almejando se consolidar como um dos shows mais comentados, e talvez um dos mais memoráveis da história recente do festival, Sabrina abriu seu set com uma experiência completamente cinematográfica, mergulhando de cabeça no imaginário da Broadway. Carregando uma introdução em formato de filme preto e branco, a vinheta teve a participação de Sam Elliott, que participou de filmes como Matador de Aluguel (1989) e Motoqueiro Fantasma (2007).
Logo em seguida, a presença de carros clássicos da década de 1960 espalhados pelo entorno do palco quebrava a parede cinematográfica da abertura e transporta a narrativa diretamente para o live show, enquanto a atração principal da noite passeava pelos corredores até a passarela principal coberta de estrelas, em alusão direta à Calçada da Fama, em Hollywood.
A abertura ficou por conta de “House Tour”, o mais recente single da cantora. O palco foi estruturado ao que remetia ao morro do famoso letreiro de cinema na Califórnia, com casinhas ao redor e ela posicionada no topo. Na sequência, “Taste” entrou como se Sabrina estivesse gravando uma audição em self-tape.
De repente, o palco já era outro, simulando um set de gravação. Para “Manchild”… bem, os homens são cachorros, literalmente. É esse tipo de brincadeira visual que faz o show ganhar personalidade, apostando no humor afiado que artista carrega na sua era do disco Man’s Best Friend (2025).
Com “When Did You Get Hot”, Carpenter teve sua primeira troca de figurino e surgiu sobre um enorme letreiro escrito SABRINAWOOD, refletindo ter transformado o Coachella no cenário do seu próprio filme ao vivo e, sinceramente, estávamos todos assistindo da primeira fila.
Foi a vez de “Please Please Please“! A popstar apareceu em um cenário representativo a um estúdio musical, bebendo completamente da iconografia de décadas passadas na forma como cada bloco se organiza visualmente. Ao performar pela primeira vez ao vivo “We Almost Broke Up Again”, Sabrina assumiu o comando da outra parede do estúdio e a faixa ganhou forma no palco com naturalidade.
Na sequência, saindo desse ambiente diretamente para um poste iluminado, fomos imediatamente transportados para referências visuais que remetem cenas do filme musical La La Land (2016). Dali, a cantora ainda encontrou mais um novo espaço no palco ao entrar em um bar para cantar “Nobody’s Son”.
A experiência adquiriu ainda mais camadas com a participação de Susan Sarandon, de clássicos como Thelma & Louise (1991) e The Rocky Horror Picture Show (1975), que entregou um monólogo de cerca de dez minutos. Corey Fogelmanis, colega de elenco de Carpenter em “Girl Meets World”, também fez uma participação especial como garçom em um cinema drive-in.
Se até aqui o show se comportava como cinema clássico, o espetáculo mergulhou de vez no mundo musical. Em “Sugar Talking”, a artista investiu de vez no lado mais performático e sensual do espetáculo ao dividir a cena com um dançarino em um dueto coreografado que remete diretamente à atmosfera de Dirty Dancing: Ritmo Quente (1987).
Em “Feather”, o palco ganhou outra camada visual quando as dançarinas entram com uma estética que flertou com o universo de Moulin Rouge – Amor em Vermelho (2001), com muito brilho, teatralidade e uma energia burlesca. A faixa ainda incorporou um novo arranjo musical mais sofisticado, com direito a um sample de “Copacabana”, de Barry Manilow.
No ato final, o show assumiu de vez o estrelato de um musical pop. Will Ferrell surgiu como participação especial e sua presença funcionou quase como a abertura de um novo capítulo. “Bed Chem”, “Juno” e, claro, “Espresso” manteve a energia no ápice, antes de “Goodbye” e “Tears” conduzirem o grande desfecho. Um dos assentos dos carros retrô se levantou com a artista por cima e se transformou em uma fonte, permitindo que chafarizes de água começassem a sair do chão, deixando o deserto do Coachella completamente ensopado.
Sabrina Carpenter faz o showbiz parecer fácil para ela. A cantora tira de letra todas as oportunidades que recebe e, honestamente, faz uma bela limonada com cada uma delas. Existe uma segurança muito clara na maneira como Sabrina entende o arco palco-narrativa-espetáculo, é como assistir alguém que realmente sabe brincar com a própria imagem sem perder o controle.
A artista encerrou seu set no Coachella 2026 dirigindo um dos carros pelos corredores da passarela, enquanto os créditos de cinema subiam pelo telão. Foi inspirador ver alguém se arriscando da forma como Carpenter faz, com um show sustentado por mais de oito estruturas e um storytelling muito bem amarrado, sem perder a disciplina e deixar a direção criativa dissipar. É disso que um headliner precisa.
Toda a megaprodução artística e envolvente construída ao redor da cantora, dominando o primeiro final de semana em Hollywood e trazendo atos teatrais para o show como se a Broadway tivesse sido transportada para o deserto, foi simplesmente fascinante.
