Do porão ao Grammy e Lollapalooza Brasil: a revolução sonora do Turnstile

Foto: divulgação

O lançamento do álbum de estreia Nonstop Feeling, em 2015, marcou um ponto de virada na carreira do Turnstile, uma das atrações do Lollapalooza Brasil no mês que vem. Embora o disco estivesse firmemente enraizado no hardcore, o trabalho trouxe um elemento que fugia do padrão do gênero: o groove.

Influências do funk, do rock alternativo e até do post-punk começaram a aparecer com mais clareza, especialmente na forma como a banda trabalhava ritmo e transições. Tal movimento ampliou o alcance do Turnstile dentro da cena alternativa, atraindo ouvintes que não necessariamente consumiam hardcore tradicional. Ao mesmo tempo, o grupo manteve o respeito do underground justamente por não soar forçado ou calculado.

Nonstop Feeling deixou claro que o Turnstile não estava interessado apenas em velocidade e agressividade, mas em provocar sensações e esse era um ponto que se tornaria central em sua evolução artística.

Time & Space e a construção de uma identidade própria

Em 2018, Time & Space levou a expansão sonora a um novo nível. Com produção mais refinada, o álbum apresentou uma abordagem mais consciente sobre dinâmica, atmosfera e composição. Aqui, o Turnstile começou a equilibrar momentos de explosão com passagens mais abertas, criando contrastes que adicionaram profundidade às músicas.

O material consolidou a banda como um dos nomes mais interessantes do hardcore moderno. O Turnstile já não era visto apenas como representante de uma cena local, mas como um grupo capaz de dialogar com universos do rock alternativo, do indie e até do metal. Foi também nesse período que a banda passou a ocupar espaços maiores em festivais e turnês, preparando o terreno para o salto definitivo que viria a seguir.

Glow On: quando o hardcore ganha novas cores

Lançado em 2021, Glow On foi amplamente considerado o álbum mais importante da carreira do Turnstile, e não por acaso. O disco rompeu de vez as barreiras do hardcore tradicional, incorporando elementos de psicodelia, música eletrônica, funk, pop e rock alternativo, tudo costurado por uma estética vibrante e contemporânea. As músicas se tornaram mais acessíveis, dançantes e atmosféricas, sem perder o peso ou a urgência emocional.

Em vez de abandonar o hardcore, o Turnstile o expandiu, mostrando que o gênero pode ser plural, sensorial e até luminoso. Aclamado pela crítica e presente em diversas listas de melhores do ano, Glow On apresentou o Turnstile a um público global. A banda deixou de ser apenas uma referência da cena pesada para se firmar como um dos projetos mais relevantes do rock contemporâneo.

Do underground ao Grammy: o peso do reconhecimento

A chegada do Turnstile a espaços de grande visibilidade, como o Grammy, marcou um momento relevante para uma vertente do Rock historicamente marginalizada. O hardcore, por muito tempo, foi tratado pela indústria musical como um movimento restrito ao próprio circuito: importante para quem vive o gênero, mas distante de ter o seu devido reconhecimento. Nesse cenário, a presença do Turnstile aponta para uma mudança mais ampla.

O reconhecimento, aliás, não surgiu a partir de concessões ou de uma diluição de identidade. O Turnstile alcançou seu espaço ao expandir os limites do hardcore sem abandoná-lo. A banda incorporou novas texturas e referências atuais, ao mesmo tempo em que preservou elementos centrais do gênero. Trata-se de uma tradução do underground para um público maior mas, sem perder o seu significado.

O Grammy, nesse contexto, funciona menos como um prêmio e mais como um indicador cultural. Ele sinaliza que expressões antes vistas como periféricas passam a ser reconhecidas como produções artísticas relevantes no cenário musical atual. Esse movimento se reflete além do Turnstile, abrindo espaço para outras bandas pesadas em grandes festivais, na mídia especializada e em plataformas de alcance global.

Assim, o grupo se estabelece como um agente de transformação no rock pesado contemporâneo. Sua trajetória demonstra que o vínculo com o underground pode coexistir com visibilidade institucional.

A força do Turnstile ao vivo

Ao vivo, o Turnstile mantém o espírito do hardcore intacto. Seus shows são marcados por intensidade, rodas de mosh, proximidade com o público e uma sensação constante de catarse coletiva. Mesmo em grandes palcos, a banda consegue recriar a atmosfera de um show pequeno, reforçando a ideia de pertencimento que a banda sempre busca ter. Tal entrega é um dos principais motivos pelos quais o Turnstile se destaca em festivais. Os integrantes não apenas tocam para o público, eles puxam para dentro da experiência.

A presença do Turnstile no Lollapalooza Brasil vai além de ocupar um espaço no line-up, refletindo um momento específico do festival e da própria música alternativa, em que gêneros historicamente ligados ao underground passam a dividir o centro do palco com artistas de apelo mais amplo. Ao longo dos últimos anos, o Lollapalooza tem ampliado seu recorte sonoro, abrindo espaço para propostas mais intensas e menos previsíveis e o Turnstile se encaixa exatamente nesse movimento.

Dentro da programação que ocupará o Autódromo de Interlagos, em São Paulo, nos dias 20, 21 e 22 de março, a banda ocupa um lugar singular. O grupo não chegará ao evento como atração nostálgica nem como aposta emergente, mas como um nome em plena maturidade artística, respaldado por aclamação crítica, reconhecimento institucional e um público que ultrapassa as fronteiras do hardcore. É um show que carrega expectativa não apenas entre fãs do gênero, mas também entre quem busca experiências ao vivo mais físicas, caóticas e envolventes.

A tendência é que o setlist reflita o momento atual da carreira deles. Faixas de Glow On e do recente Never Enough (2025) devem dominar a apresentação, funcionando como ponto de conexão direta com o público diverso do festival, enquanto músicas da fase mais hardcore surgem como lembrança constante das origens da banda. Em edições anteriores do Lolla BR, apresentações marcadas por esse nível de intensidade costumam se tornar pontos de virada na atmosfera do festival. O Turnstile possui todos os elementos para ocupar tal lugar, pois, além de um show energético, a banda aposta em conexão, sensação de pertencimento e uma entrega única.

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