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Em um cenário musical onde a definição de imagem muitas vezes precede a obra, jumorelo surge na contramão, pedindo licença para não caber em moldes estáticos. A resposta do público à sua autenticidade foi imediata e seu EP de estreia, me chame como quiser, já ultrapassou a marca de 60 mil plays em todas as plataformas digitais.
A artista, natural de Santo André, em São Paulo, apresenta um conjunto de canções recebidas como um manifesto sonoro sobre a liberdade de ser múltipla. O trabalho de estúdio é fruto de um processo de maturação que levou meia década, com letras iniciadas quando Julia Morelo Souza tinha apenas 15 anos e que sobreviveram ao tempo e às transformações pessoais.
O que inicialmente foi pensado como um projeto observacional sobre amores alheios, que levaria o título de “eu ouvi sobre o amor”, se tornou um espelho brutalmente honesto da própria artista, gerando identificação instantânea com quem a ouve.
A fluidez como conceito central
O título “me chame como quiser” nasceu de uma percepção aguçada sobre a dinâmica dos relacionamentos: a ideia de que somos constantemente reinventados pelo olhar do outro. Para jumorelo, cada afeto vivido cria uma nova versão de nós mesmos, um novo apelido, uma nova leitura. A identidade do compacto parte dessa fluidez, recusando rótulos fixos e permitindo que o ouvinte se aproprie da obra, como ela afirmou em nota para a imprensa:
“O EP não pede que alguém entenda tudo, ele permite que cada um leve o que fizer sentido. Costumo dizer: o que for seu é seu, e você pode pegar”.
Tal filosofia se reflete na sonoridade que bebe da fonte do indie rock e foi influenciada por bandas nacionais e internacionais do gênero. Jumorelo, em um contexto geral, constrói o que define como músicas de “clima”. Longe da busca frenética pelo hit de algoritmo, as faixas da artista são trilhas sonoras para o cotidiano, compostas a partir de anotações soltas e sentimentos que precisavam ser expurgados. É uma obra sobre a liberdade de existir sem a obrigação de dar explicações.

Uma jornada em seis faixas
A narrativa do EP é construída como um arco emocional que viaja da dúvida à aceitação. A obra se inicia com “Resposta”, um convite direto onde a artista canta “suponho que você se encontre no som”, abrindo as portas para a identificação pessoal. Logo em seguida, “você não sabe” expõe a vulnerabilidade da dependência emocional e a dor de um amor mantido em segredo, preparando o terreno para a densidade de “tatuagens escondidas”. Esta faixa, que conta com a participação de Pedro Lanches, aborda o ciclo vicioso do “vai e volta” e o desejo insistente por relações que sabemos serem nocivas.
A segunda metade do trabalho traz “algo me trouxe aqui”, uma ode aos encontros inesperados e à impermanência do desejo, seguida pela intensa “tralha”, que traduz musicalmente a desorientação causada pelo love bombing (o excesso de afeto manipulativo). A jornada se encerra com “não vai voltar”, a faixa favorita da compositora. É nela que a “Julia dos 20 anos” acolhe a “Julia dos 15”, demonstrando a maturidade de entender que o desejo precisa ser uma via de mão dupla, transformando a angústia inicial em uma aceitação serena.
A química da produção com o anteontem
Para traduzir os sentimentos em som, jumorelo não buscou um estúdio impessoal, mas sim o conforto da amizade. A produção é assinada pelo coletivo Anteontem, formado por Leo Sardela, Guido Almeida e Pedro Zurma, amigos de faculdade da artista. O processo de gravação aconteceu organicamente em encontros semanais na casa de Leo, permitindo que a vulnerabilidade fosse a matéria-prima principal, como afirmou Leo:
“A colaboração é o que faz esse projeto ser o que é. A Morelo é uma pessoa com várias ideias e referências, e nosso trabalho foi traduzir na música quem ela é como pessoa.”

A espontaneidade foi tamanha que faixas como “não vai voltar” nasceram de improvisos no momento da gravação. Segundo Pedro Zurma, “a melhor versão da Julia vem nos momentos mais urgentes”, o que permitiu que um arranjo de violão criado na hora se tornasse o alicerce da música mais importante do disco.
Identidade visual e futuro
A estética de me chame como quiser recusa estratégias de marketing frias. A capa e os visualizers são extensões emocionais do som, funcionando como um retrato fiel da artista, sem personagens. Para jumorelo, ser uma mulher na cena independente é transformar a própria existência em resistência. Com o lançamento, ela já projeta levar o EP para os palcos, encarando este trabalho não como um ponto final, mas como o início de uma trajetória.
Ouça me chame como quiser logo abaixo!
