Justin Bieber traz a magia de “SWAG” para o Coachella 2026

Foto: reprodução

Vestindo um moletom vermelho com capuz e óculos escuros, Justin Bieber subiu ao palco do festival Coachella neste sábado (11) com a confiança de quem sabia do peso simbólico de seu retorno após quatro anos longe de apresentações e as responsabilidades de ser um headliner do evento. Ao menos foi o que aparentava.

Depois de alguns rumores sobre uma apresentação minimalista e econômica em palco, o cantor deixou uma estrutura completa tomar conta do Main Stage e deixou claro que veio para flertar com o visual. A cenografia apostou em uma passarela especial de uma largura quase absurda, desembocado por uma enorme estrutura circular na ponta.

Foi ali, sobre uma espécie de puff branco gigante, que Bieber surgiu, elevando a entrada a um momento de revelação. O palco parecia desenhado para amplificar sua presença e ressaltar apenas o artista, ainda que, ao longo da noite, ele não tenha explorado esse espaço tanto quanto poderia.

“All I Can Take” foi a escolhida para abrir a noite, seguida por “Speed Demon”, ambas do recente disco SWAG (2025). Ficou nítido o quanto o cantor se sente confortável dentro dessa nova era em músicas que transitam completamente pela energia atual dele, mais introspectiva e mais crua, próxima do universo do R&B. O foco realmente esteve entre SWAG e SWAG II (lançado no mesmo ano), como já vinha sendo especulado nos ensaios e na passagem de som.

Em vários momentos, Justin mantinha um computador ao lado dele, acompanhando a transmissão ao vivo de seu set e tentando criar sintonia com os fãs que assistiam de casa. Houve até a menção de que talvez o público pudesse ajudar a escolher algumas músicas, embora seja algo que não se concretizou no plano real.

Visualmente, foi uma apresentação que trabalhou muito com cores, fumaça, contrastes de luz e tela. Longe de ter sido uma mega produção no sentido clássico de popstar com dezenas de bailarinos e trocas frenéticas de cenário, mas existiu um conceito visual interessante se bem explorado.

Ao mesmo tempo, foi impossível não sentir a tensão no público. É triste ver que muitos fãs ainda estavam presos apenas à expectativa de um desfile de hits antigos sem abraçar SWAG como um álbum completo de ponta a ponta. Bieber claramente veio com outro objetivo.

“Walking Away”, uma das melhores faixas do disco, marcou presença e foi um dos pontos altos da primeira metade do show. Justin, é preciso destacar, vem se alimentando da estética do trap americano para seus estilos e apresentações, mesmo ainda carregando a imagem de príncipe do pop.

Quando “Stay” entrou, um dos maiores hits da carreira recente, a atmosfera foi outra. A participação especial de The Kid Laroi trouxe justamente o pico comercial de início que se esperava de um headliner, lembrando que são os grandes sucessos que também sustentam esse lugar no topo do line-up.

Ainda assim, logo após o ápice, o set desacelerou de forma brusca. Ao seguir para voz e violão na ponta da passarela, a sensação foi de que o show segurou a onda cedo demais. Se por um lado a escolha reforçou a intimidade que Bieber parece buscar em sua fase atual, por outro ela interrompeu uma ascensão de energia que poderia ter sido melhor sustentada antes de mergulhar no lado mais contemplativo.

No entanto, ouvi-lo ao vivo hoje vai além do setlist. Existe algo muito claro de reconciliação com o próprio tempo Não à toa, levou quatro anos para o retorno de Justin acontecer, o que transpareceu na forma como ele conduz o palco. O canadense é daqueles artistas que não precisam mais de grandes produções para se destacar no palco, mesmo tendo passado por eras de um espetáculo mais grandioso.

Hoje, parece que isso já não é prioridade. Será que o que é prioridade para ele, também é para o público? Podemos concordar que o cantor com um violão, microfone, bermuda e jaqueta oversized ainda consegue entregar momentos de catarse, é o que a estética de SWAG pede. O vocal, por sua vez, segue certamente angelical e preciso.

Há também uma leitura muito forte de que o astro passou grande parte da carreira tentando ser ouvido para além do personagem que se criou em torno dele. Talvez por isso ele pareça menos interessado em megaproduções e mais focado em contar uma história que seja justa consigo mesmo.

O bloco nostálgico esperado por muitos, quando chegou, funcionou quase como uma celebração de legado. “Baby”, “Favorite Girl”, “That Should Be Me”, “Beauty and a Beat”,“Never Say Never”, “Confident” e “All That Matters” vieram em sequência como um grande full circle em uma espécie de medley. Muitas dessas músicas não eram performadas há anos, e o sorriso dele ao cantá-las dizia muito mais do que qualquer discurso.

Ao mesmo tempo, a ausência de uma banda ao vivo pesou. Em vários momentos, a impressão era de que Bieber era seu próprio DJ, quase como se a experiência flertasse com uma listening party em escala festival. Tal escolha, embora conceitualmente interessante, criou uma certa barreira entre performance e condução.

Apesar da crítica, ter Justin se pesquisando no YouTube, revendo memes, vídeos antigos e momentos da própria carreira é uma ideia caricata quando se analisa legado. O cultuado artista é um dos grandes nomes que ajudaram a consolidar a plataforma como máquina de estrelas e venda de grandes videoclipes.

Momentos como esse proporcionaram a contraposição das vozes do cantor entre passado e presente. De um lado, a voz adolescente que apresentou Bieber ao mundo, mais aguda, leve e imediatamente reconhecível; do outro, a voz amadurecida de hoje, mais encorpada, grave e emocionalmente mais densa. Não podemos deixar de fora a emoção de ter o popstar se encarando no telão diante desse momento, né?

Dá para entender que existe toda uma figuração para um malabarismo conceitual por trás, uma tentativa de transformar o improviso em linguagem, mas ainda assim são compreensíveis e, até certo ponto, respeitáveis as controvérsias que têm sido levantadas após a finalização do set. Na reta final, o show ganhou ainda mais consistência com as participações especiais.

Dijon subiu ao palco em “Devotion”, deixando evidente sua importância na construção sonora de SWAG. Depois, Tems apareceu em “I Think You’re Special”, um dos momentos mais emblemáticos com vocais que realmente se completam ao vivo. Wizkid entrou para “Essence”, e o encerramento ficou por conta de Mk.gee em “Daisies”.

No fim, talvez essa tenha sido a grande proposta do show: menos espetáculo coreografado, mais jornada pessoal. Ainda assim, faltou Bieber ter percorrido mais pela enorme passarela. Dessa forma, a nova fase de Justin pode ser menos sobre dominar o espaço e mais sobre finalmente ocupar o próprio tempo.

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