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Vestindo um moletom vermelho com capuz e óculos escuros, Justin Bieber subiu ao palco com a confiança de quem sabia do peso simbólico de seu retorno após quatro anos longe de apresentações e as responsabilidades de ser um headliner em um festival como o Coachella, ao menos foi o que aparentava. Depois de alguns rumores sobre uma apresentação minimalista e econômica em palco, o cantor deixou uma estrutura completa tomar conta do Main Stage e deixou claro que veio pra flertar com o visual.
A cenografia apostou em uma passarela especial de uma largura quase absurda, desembocado por uma enorme estrutura circular na ponta. Foi ali, sobre uma espécie de puff branco gigante, que Bieber surgiu, elevando a entrada a um momento de revelação. O palco parecia desenhado para amplificar sua presença e ressaltar apenas o artista, ainda que, ao longo da noite, ele não tenha explorado esse espaço tanto quanto poderia.

“All I Can Take” foi a escolhida para abrir a noite, seguida por “Speed Demon”, ambas de SWAG. Ficou nítido o quanto ele se sente confortável dentro dessa nova era, em músicas que transitam completamente pela energia atual dele, mais introspectiva, mais crua, mais próxima do universo do R&B. O foco realmente esteve entre SWAG e SWAG II, como já vinha sendo especulado nos ensaios e na passagem de som.
Em vários momentos, Bieber mantinha um computador ao lado, acompanhando a transmissão ao vivo de seu set e tentando criar sintonia com os fãs que assistiam de casa. Houve até a menção de que talvez o público pudesse ajudar a escolher algumas músicas, embora não se concretizou no plano real.
Visualmente, é uma apresentação que trabalha muito com cores, fumaça, contrastes de luz e tela. Não é uma mega produção no sentido clássico de popstar com dezenas de bailarinos e trocas frenéticas de cenário, mas existe um conceito visual interessante se bem explorado.

Ao mesmo tempo, foi impossível não sentir a tensão no público. É triste ver que muitos fãs ainda estavam presos apenas à expectativa de um desfile de hits antigos sem abraçar SWAG como um álbum completo de ponta a ponta. E ele claramente veio com outro objetivo.
“Walking Away”, uma das melhores faixas do disco, marcou presença e foi um dos pontos altos da primeira metade do show. Claramente Bieber vem se alimentando da estética do trap americano para seus estilos e apresentações, mesmo ainda carregando a imagem de príncipe do pop.
Quando “Stay” entrou, um dos maiores hits da carreira recente, a atmosfera foi outra. A participação especial de The Kid Laroi trouxe justamente o pico comercial de início que se esperava de um headliner, lembrando que são os grandes sucessos que também sustentam esse lugar no topo do line-up.
aparecía de la nada the kid laroi para cantar STAY con justin bieber en coachella pic.twitter.com/46fDKsfGtS
— nacho con O (@NachoConO) April 12, 2026
Ainda assim, logo após esse ápice, o set desacelerou de forma brusca. Ao seguir para voz e violão na ponta da passarela, a sensação foi de que o show segurou a onda cedo demais. Se por um lado a escolha reforça a intimidade que Bieber parece buscar nessa nova fase, por outro ela interrompe uma ascensão de energia que poderia ter sido melhor sustentada antes de mergulhar no lado mais contemplativo.
Mas ouvi-lo ao vivo hoje vai além do setlist. Existe algo muito claro de reconciliação com o próprio tempo, claro, não à toa, levou quatro anos para esse retorno acontecer, e isso transparece na forma como ele conduz o palco. Justin é daqueles artistas que não precisam mais de grandes produções para se destacar no palco, mesmo tendo passado por eras de um espetáculo mais grandioso, hoje parece que isso já não é prioridade. Será que o que é prioridade para ele, também é para o público?
O cara com um violão, microfone, bermuda e jaqueta oversized ainda consegue entregar momentos de catarse, é o que a estética de SWAG pede. O vocal, por sua vez, segue certamente angelical e preciso.

Há também uma leitura muito forte de que o astro passou grande parte da carreira tentando ser ouvido para além do personagem que se criou em torno dele. Talvez por isso hoje ele pareça menos interessado em megaproduções e mais focado em contar uma história que seja justa consigo mesmo.
O bloco nostálgico esperado por muitos, quando chega, funciona quase como uma celebração de legado. “Baby”, “Favorite Girl”, “That Should Be Me”, “Beauty and a Beat”, “Never Say Never”, “Confident” e “All That Matters” vieram em sequência como um grande full circle em uma espécie de medley. Muitas dessas músicas não eram performadas há anos, e o sorriso dele ao cantá-las dizia muito mais do que qualquer discurso.
Ao mesmo tempo, a ausência de uma banda ao vivo pesou. Em vários momentos, a impressão era de que Bieber era seu próprio DJ, quase como se a experiência flertasse com uma listening party em escala festival. Essa escolha, embora conceitualmente interessante, criou uma barreira entre performance e condução. Apesar da crítica, ter Justin se pesquisando no YouTube, revendo memes, vídeos antigos e momentos da própria carreira é uma ideia caricata quando se analisa legado. O canadense é um dos grandes nomes que ajudaram a consolidar a plataforma como máquina de estrelas e venda de grandes videoclipes.
Justin cantando That should be me, es lo más hermoso del mundo #BIEBERCHELLA pic.twitter.com/yyXsplCt4i
— briii (@hsbriisa) April 12, 2026
Momentos como esse proporcionaram a contraposição das vozes do cantor entre passado e presente. De um lado, a voz adolescente que apresentou Bieber ao mundo, mais aguda, leve e imediatamente reconhecível; do outro, a voz amadurecida de hoje, mais encorpada, grave e emocionalmente mais densa. E não posso deixar de fora a emoção de ter o popstar se encarando no telão diante desse momento, né?
Dá para entender que existe toda uma figuração para um malabarismo conceitual por trás, uma tentativa de transformar o improviso em linguagem, mas ainda assim são compreensíveis e, até certo ponto, respeitáveis as controvérsias que têm sido levantadas após a finalização do set.
O problema fica aparente quando a apresentação começa a soar como despreparo, quase como um aluno que precisa entregar um TCC e decide improvisar o Powerpoint naquele mesmo instante. Em vários momentos, a sensação é de amadorismo, especialmente para alguém que esteve afastado por tanto tempo e retornou cercado por uma expectativa gigantesca, ainda mais sendo cotado como o artista mais bem pago da história do festival, com um cachê na casa dos 10 milhões de dólares.
Gostei do que ele entregou pra essa nova etapa, ao menos se a estrutura envolvendo o YouTube tivesse sido melhor amarrada ao palco, o show teria sido mais digno da dimensão desse comeback.
Na reta final, o show ganha ainda mais consistência com as participações especiais. Dijon sobe ao palco em “Devotion”, deixando evidente sua importância na construção sonora de SWAG. Depois, Tems aparece em “I Think You’re Special”, um dos momentos mais emblemáticos com vocais que realmente se completam ao vivo. Wizkid entra para “Essence”, e o encerramento fica por conta de Mk.gee em “Daisies”.
No fim, talvez essa tenha sido a grande proposta do show: menos espetáculo coreografado, mais jornada pessoal. Ainda assim, sigo sentindo falta de ele ter percorrido mais a passarela, mas talvez essa nova fase dele seja menos sobre dominar o espaço e mais sobre finalmente ocupar o próprio tempo.

