“Older”: álbum de Lizzy McAlpine amadurece junto com quem escuta

Foto: divulgação

Ainda que seu nome tenha alcançado enorme projeção por meio de faixas virais, Lizzy McAlpine segue sendo, de certa forma, uma das artistas mais subestimadas de sua geração. A cantora americana é conhecida desde seus primeiros projetos por uma composição crua e confessional. O que talvez mude é a profundidade sonora em que Lizzy vem apostando nos últimos tempos, e Older, seu disco lançado em fevereiro de 2024, prova isso.

Gravado e produzido em Los Angeles ao lado de Mason Stoops (Ryan Beatty, Del Water Gap), Ryan Lerman do Scary Pockets, Jeremy Most (Emily King, Norah Jones) e Tony Berg (Taylor Swift, Boygenius), o álbum mostra a estrela em ascensão de 24 anos conquistando mais confiança e descobrindo sua voz, além de definir sua arte com profunda simplicidade.

“The Elevator” abre o álbum com um piano sutil, quase íntimo, que rapidamente se expande por meio de harmônicos e slides em bottleneck, instrumento característico do Blues, criando um som contínuo e certamente melancólico. Mesmo com apenas 1 minuto e 40 segundos, a faixa funciona como uma introdução perfeitamente encapsulada do universo emocional e sonoro que o álbum pretende explorar.

Em “Come Down Soon”, Mcalpine volta a apostar no lapsteel, mas aqui eles aparecem ainda mais demarcados ao longo da canção, trazendo um timbre que já aponta para uma evolução em relação a five seconds flat. Na sequência, “Like It Tends to Do”, em um tom quase monomelódico, mergulha na ideia de esperar que algumas coisas permaneçam mesmo sabendo que o tempo, inevitavelmente, transforma tudo.

Durante “All Falls Down”, essa relação com o tempo se torna ainda mais explícita quando a cantora constrói a ideia de um movimento simultâneo entre queda e retorno, como se crescer também significasse revisitar versões anteriores de si mesma. “Staying” é uma das faixas mais emblemáticas do trabalho de estúdioo, acumulando mais de 151 milhões de reprdouções.

A canção aborda sobre o processo de desapego dentro de uma relação, sobre a sensação de que a outra pessoa talvez só perceba a perda quando ela finalmente acontecer. Com toques de guitarra e uma bateria simples, a música modifica sua aparente delicadeza em algo profundamente poderoso.

“I Guess” foi a primeira faixa desta nova era a entrar no radar do público e sintetiza bem o coração do disco. A canção fala sobre as múltiplas possibilidades de sentir quando se gosta de alguém, e sobre todas as nuances que esse afeto inevitavelmente carrega. O final cresce em corpo e emoção, com vocais em coral, trompete e violão acústico se encontrando em uma harmonia absurdamente encantadora.

Em “Drunk Running”, Lizzy amplia a grandiosidade do álbum com um arranjo orquestral que reforça seu caráter quase imersivo, trazendo algo de cinematográfico na maneira como a faixa se constrói, enquanto o minuto e meio final inteiramente instrumental funciona quase como um convite para permanecer dentro do sentimento.

Por ora, “Broken Glass” segue a lógica crescente de tensão com a imagem do vidro quebrado traduzindo a fragilidade enquanto a progressão musical acompanha essa ansiedade, com a bateria surgindo mais impulsiva, quase provocando no ouvinte a mesma inquietação que a letra sugere. Já a faixa-título, “Older”, é completamente devastadora.

Existe uma percepção comum de que o tempo vem para curar, facilitar ou organizar as coisas, mas a artista confronta justamente essa expectativa: às vezes o tempo passa e ainda assim seguimos sem saber qual rumo tomar. Em versos como “mom’s getting older, I’m wanting it back”, a canção carrega o peso de quem um dia quis crescer e agora entende que crescer também significa se aproximar da possibilidade de perder quem ama. É uma das músicas mais dolorosas e honestas do disco, impossível escutar essa sem um lencinho ao lado.

“Better Than This” aponta sobre amar alguém e, ao mesmo tempo, entender que se merece mais do que aquilo que se recebe. Há uma culpa silenciosa nesse reconhecimento, como se redirecionar esse amor fosse um erro. A troca do violão de aço pelo nylon deixa os acordes ainda mais nítidos e íntimos. “March” está na mesma linha de vulnerabilidade de “Older”, se não ainda em um patamar maior. Há na faixa uma exposição emocional quase desarmada, como se Lizzy Mcalpine retirasse qualquer camada de proteção entre a composição e quem escuta.

Cada arranjo parece existir para sustentar o peso das palavras, nunca para competir com elas. O encerramento de “Vortex” funciona, de fato, como um reflexo direto de “The Elevator”. A faixa encerra o percurso construindo um senso circular, quase como se o álbum se dobrasse sobre si mesmo. O que se inicia em suspensão, retorna ao final em forma de eco.

Ouça Older logo abaixo!

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