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Mesmo após polêmica atrás de polêmica, Kanye West voltou ao centro da conversa com o lançamento de Bully no último fim de semana, seu primeiro álbum solo desde Donda 2. O projeto chegou cercado por uma tentativa evidente de reposicionamento de imagem, impulsionada inclusive por um pedido público de desculpas e pelo anúncio de um grande show no SoFi Stadium, em Los Angeles.
A pergunta que aterrissa vai além do disco. Até que ponto ainda faz sentido separar a obra do artista quando a conduta passa a ocupar um espaço tão central quanto a própria música?
É inegável que a discografia de Kanye, do seminal The College Dropout (2004) até The Life of Pablo (2016), representa uma construção de legado raríssima dentro do hip-hop, são anos de reinvenção estética, produção visionária e impacto cultural. Sua influência também se estendeu para outros artistas, ajudando a projetar nomes e carreiras. Um dos casos mais emblemáticos foi o de Keyshia Cole, cuja participação em “I Changed My Mind”, produzida por Kanye, foi essencial para ampliar seu alcance no início dos anos 2000 e consolidá-la no R&B mainstream. Kanye sempre teve esse poder de leitura de mercado e de som, de perceber vozes e construir grandes momentos ao redor delas, mas é justamente aí que o debate se torna mais desconfortável.
Toda essa discografia impecável parece ter sido profundamente atravessada por comportamentos extremistas e por uma sucessão de declarações e atitudes que ultrapassam a esfera artística. Após Donda, o peso das controvérsias se tornou ainda mais difícil de dissociar da música. As declarações antissemitas, elogios explícitos a Adolf Hitler e a autodenominação como nazista não são apenas “polêmicas”, mas discursos de ódio com consequências reais.
Pessoalmente, e talvez aqui resida o ponto mais honesto desse debate, chega um momento em que simplesmente falta gás. Ouvir os novos trabalhos como Vultures, Donda 2 e agora Bully, deixa de ser apenas uma experiência musical e passa a carregar o peso do que veio junto com eles. Mesmo com a tentativa de limpar a imagem, inclusive com a articulação de um show em São Paulo no ano passado que acabou cancelado pela má repercussão pública, a sensação é de que a música já não chega sozinha.
O caso do The Neighbourhood também levanta uma discussão delicada sobre responsabilidade coletiva e permanência de figuras envolvidas em acusações graves. Quando uma banda decide seguir sem um reposicionamento claro diante de denúncias envolvendo um integrante, a mensagem transmitida ao público inevitavelmente também passa pela conivência percebida.
Ao mesmo tempo, a indústria frequentemente opera com pesos muito diferentes dependendo de quem está no centro da narrativa. Enquanto artistas homens acumulam desculpas esfarrapadas e seguem sendo reintroduzidos ao mercado, figuras como Chappell Roan podem se tornar alvo de ciclos massivos de especulação midiática mesmo quando nada se confirma. Esse contraste diz muito sobre quais comportamentos o mercado escolhe perdoar e, principalmente, quais continua lucrando em cima.
Em muitos casos, a nostalgia funciona como uma moeda poderosa, entretanto, até que ponto a nostalgia ainda é justificável quando ela passa a alimentar uma indústria que, pouco a pouco, constrói uma espécie de perdão para aquilo que deveria permanecer imperdoável? Essa talvez seja um dos questionamentos mais desconfortáveis da cultura pop hoje. O afeto que muitas pessoas têm por determinadas obras, artistas e universos ficcionais frequentemente funciona como uma blindagem emocional, quase como se a memória afetiva fosse suficiente para suspender qualquer reflexão ética sobre quem está por trás daquilo.
Talvez a pergunta mais importante seja justamente a que você levanta: o discurso de separar a obra do artista ainda faz sentido ou ele só aparece quando convém?
