Foto: I Hate Flash
Em uma era em que ingressos são escaneados por QR codes e memórias são arquivadas em nuvens virtuais, a experiência física dos festivais passa por uma transformação. A substituição das tradicionais pulseiras por credenciais digitais representa um avanço logístico evidente, mas também revela uma perda simbólica acerca da materialidade da recordação.
Durante décadas, colecionar pulseiras se tornou um ritual entre frequentadores de festivais. Para além da funcionalidade cashless, que permitia pagamentos ágeis e reduzia a circulação de dinheiro físico, elas operavam como distintivos de pertencimento temporário a uma comunidade estética e cultural, indicando a presença tátil de algo que resistia ao tempo.
Há, portanto, um debate que ultrapassa a nostalgia, de forma que, a ausência das pulseiras evidencia uma tensão entre eficiência tecnológica e experiência simbólica. O avanço do digital trouxe praticidade, segurança e sustentabilidade operacional, no entanto, ao eliminar o objeto físico, retira-se também um símbolo de permanência de uma dimensão sensorial que o ambiente virtual ainda não consegue replicar.
ver a pulseira do lolla dos hermanos… dói…
— We In The Crowd (@weinthecrowd) February 12, 2026
bring back the pulseirinhas 😭 pic.twitter.com/Fsqe8g36vF
Um tempo não tão distante
A ruptura com esse modelo, consolidada em grandes eventos recentes no país, como o Rock in Rio 2022 e o The Town 2023, evidencia uma mudança de paradigma. Se, por um lado, há eficiência e redução de custos logísticos, por outro há um esvaziamento da dimensão sensorial da experiência.
O que o digital cumpre sua em sua função operacional, não substitui a materialidade enquanto eternização. Seja por meio de merchandising, dos tradicionais lambe-lambes ou das pulseiras, era a caracterização de uma identidade sólida que contribuia para consolidar essa sensação de comunidade.
Se arte é, por definição, exercício de criatividade e expressão coletiva, a música, como uma de suas formas mais potentes, também depende de símbolos que expressem a experiência. Retomar essa ferramenta significa valorizar a arte não apenas como consumo, mas como inserção de recordação.
A discussão não é sobre resistir ao progresso, mas sobre compreender que determinadas recordações dependem do toque, do desgaste e da presença física para existir plenamente, como pequenas peças de tecido que ainda carregam algo que nenhum arquivo em alta resolução consegue substituir.
