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Em janeiro de 1985, o Brasil ainda aprendia a respirar fora de um regime autoritário, quando mais de 250 mil pessoas por noite passaram a ocupar um terreno improvisado em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, onde foi realizada a primeira edição do Rock in Rio.
Ali, diante de um palco monumental erguido onde antes havia lama, o país assistiu ao show de artistas que, até então, só existiam em capas de disco e transmissões estrangeiras cantarem ao vivo para uma multidão, vivendo uma promessa de algo que os brasileiros jamais haviam visto e rompendo uma barreira entre o inalcançável e o coletivo para estabelecer uma convergência cultural.
O Brasil de 1985 entre passado e futuro
Nos anos finais da ditadura militar, o Brasil vivia um momento de transição ainda atravessado por resquícios de repressão, censura e limitações severas à livre circulação da arte e do pensamento. A juventude formada sob esse regime carregava um sentimento difuso de inconformismo e urgência, movida pelo desejo de ocupar espaços coletivos, estabelecer vínculos e acessar manifestações culturais sem mediações ideológicas impostas pelo Estado.
Nesse contexto, a música se afirmava como uma linguagem central de expressão e identificação, capaz de canalizar tensões sociais e aspirações individuais. Foi a partir dessa atmosfera que surgiu a concepção de um festival de rock em escala inédita no país, uma ideia que contrariava a realidade de um Brasil afastado das grandes rotas internacionais, marcado por fragilidades econômicas, entraves logísticos e ausência de tradição em megaeventos musicais.


Ainda assim, ao perceber a existência de um público reprimido, mas culturalmente faminto para uma experiência coletiva de grande impacto, o fundador do Rock in Rio Roberto Medina apostou na música como vetor de transformação simbólica, enxergando no festival não apenas um empreendimento de entretenimento, mas um gesto capaz de redefinir a relação do país com a cultura de massa e com a própria noção de liberdade, ignorando o irreal e abraçando o que se tornaria uma tradição.
Anunciado de forma ousada como “o maior show de rock do mundo que aconteceria no Brasil”, o projeto rapidamente rompeu a incredulidade inicial e passou a mobilizar o mercado fonográfico global. Artistas e empresários formaram filas para negociar contratos, com Ozzy Osbourne sendo o primeiro nome confirmado, seguido pelo Queen, cuja participação se tornaria um dos pilares simbólicos da edição inaugural.
Entre janeiro de 1985, o que antes era um terreno alagadiço e sem qualquer vocação para grandes concentrações humanas foi transformado, em poucos dias, na primeira Cidade do Rock, erguida sobre cerca de 250 mil metros quadrados a partir de uma lógica mais movida pela ousadia do que pela infraestrutura disponível. Tratava-se de um espaço concebido do zero, improvisado em sua forma, mas monumental em sua ambição, distante dos padrões técnicos e da sofisticação que hoje definem grandes festivais, porém impregnado de uma atmosfera singular, marcada pela percepção coletiva de que um acontecimento histórico estava em gestação.
Ao longo de dez dias, aproximadamente 1,38 milhão de pessoas atravessaram seus portões, um contingente que, para os parâmetros da época, beirava o inimaginável e redefinia a escala possível para eventos culturais no país. Pela primeira vez, a América Latina sediava um festival capaz de se equiparar aos grandes encontros musicais da Europa e dos Estados Unidos, deslocando simbolicamente o Brasil de uma posição periférica no circuito cultural global para o centro das atenções internacionais, agora reconhecido como agente ativo e protagonista de uma experiência de alcance mundial.
O impacto do festival foi tão significativo que alcançou artistas em momentos sensíveis de suas trajetórias, como James Taylor, então afastado da música por questões pessoais, que reencontrou no contato com o evento e na força de centenas de milhares de vozes cantando em uníssono o impulso para retomar sua carreira artística, o que inspirou a composição da música “Only a Dream in Rio”, também lançada em 1985.
Brasil como palco mundial
No palco do Rock in Rio, a música brasileira assumiu um papel que ultrapassava o espetáculo e se convertia em gesto simbólico de mobilização coletiva, sintetizado de forma direta na palavra de ordem “Muda, Brasil!”, exibida e entoada como expressão de um desejo social compartilhado. O slogan condensava o clima de transformação, a presença de nomes centrais da música nacional foi decisiva para dar corpo e legitimidade ao discurso, com Os Paralamas do Sucesso traduzindo o espírito urbano de uma nova geração, Erasmo Carlos representando a continuidade histórica da canção popular brasileira, Ney Matogrosso encarnando a liberdade estética e performática e Cazuza vocalizando com o Barão Vermelho, de forma crua e direta, as inquietações e contradições de seu tempo.

A escolha de Ney para abrir a primeira edição do Rock in Rio, aliás, extrapolava qualquer critério estritamente musical e se afirmava como um gesto carregado de simbolismo. Artista associado à transgressão, à liberdade estética e à ruptura de convenções, o cantor que fez parte do Secos & Molhados inaugurava o festival como uma declaração de princípios, sinalizando desde o primeiro momento que aquele palco não se limitaria a fórmulas previsíveis ou a um único recorte sonoro.
Desde então, ao longo de mais de quatro décadas, o Rock in Rio preservou a tradição de abrir seus palcos com artistas nacionais, reforçando a capacidade do país de se apresentar ao mundo a partir da valorização de seus próprios artistas, consolidando o evento como um espaço onde o que é nacional não apenas ocupa lugar de destaque, mas inaugura a experiência.
Momentos que viraram narrativa
o Queen protagonizou uma das cenas mais emblemáticas do festival quando Freddie Mercury, visivelmente emocionado, regeu uma multidão durante “Love of My Life”, criando uma imagem que atravessou gerações e se tornou um dos maiores símbolos da conexão entre artistas internacionais e o público brasileiro.
Na mesma edição, o Iron Maiden realizou no evento seu primeiro show na América Latina, entrando no palco às 23h58 em referência direta a “Two Minutes to Midnight” e apresentando um espetáculo que entraria para a história, marcado também pela presença do icônico Eddie. O AC/DC viveu um episódio que se tornaria lendário ao exigir a presença de um sino de 1,5 tonelada no palco, obrigando a produção a improvisar uma réplica após a estrutura não suportar o peso, em um momento que sintetiza a ousadia e a criatividade da edição inaugural.
Ozzy, por sua vez, estabeleceu uma conexão imediata com o público ao subir ao palco vestindo a camisa do Flamengo, gesto simples que simbolizou a rápida assimilação do festival à cultura brasileira. O sucesso da primeira edição transformou o Rock in Rio em uma marca global.
Consolidação do Rock in Rio
A segunda edição, realizada seis anos depois no Estádio do Maracanã, entrou para a história ao registrar um dos maiores públicos pagantes já vistos em um show, com apresentações emblemáticas como a do Guns N’ Roses, que levou músicas inéditas ao palco e solicitou a inclusão do Faith No More no line-up, e a do a-ha, responsável pelo maior fenômeno de público daquela edição. A presença de Prince, conhecido por seu rigor artístico, reforçou o prestígio internacional do festival.
Em 2001, a terceira edição marcou uma virada conceitual definitiva. O Rock in Rio deixou de ser associado exclusivamente ao rock e passou a se afirmar como um festival plural, capaz de reunir Cássia Eller, Sandy & Junior e uma jovem Britney Spears, então com 19 anos, no auge do seu estrelismo musical, sem abrir mão de um dos line-ups de rock mais icônicos de sua história.


A partir daí, o festival se expandiu internacionalmente, com edições em Lisboa e Madrid, até retornar ao Brasil em 2011 em uma nova fase, marcada por estruturas monumentais, tecnologia avançada e uma experiência imersiva que redefiniu o padrão dos festivais no país.
O Rock in Rio na atualidade
Atualmente, após décadas de consolidação de um legado cultural e institucional, o Rock in Rio ultrapassa o status de festival e se afirma como uma marca estruturante do mercado fonográfico e da indústria de shows na América Latina. Sua trajetória foi decisiva para pavimentar caminhos, profissionalizar estruturas e posicionar o Brasil como um polo estratégico para grandes turnês internacionais, tomando reconhecimento como um epicentro cultural capaz de dialogar em pé de igualdade com os principais mercados globais do entretenimento.
Esse reconhecimento se reflete tanto no fortalecimento do setor musical quanto no impacto direto sobre o turismo e a economia criativa. A cada edição, o Rock in Rio atrai olhares internacionais não apenas pelo line-up, mas pela dimensão do evento enquanto experiência urbana, cultural e simbólica. O festival projeta o Rio de Janeiro como cidade-palco e reforça a imagem do Brasil como território fértil para grandes acontecimentos culturais, ampliando sua visibilidade no cenário mundial.
Nos últimos anos, essa expansão também se deu por meio do diálogo com a moda. Assim como ocorre em festivais de referência internacional, como o Coachella, o Rock in Rio passou a influenciar tendências, estilos e comportamentos, transformando o espaço da Cidade do Rock em uma vitrine estética. Looks, combinações e códigos visuais ganham proporções virais, incorporando o festival ao calendário da moda e consolidando-o como um evento que extrapola o campo musical.
Esse movimento é potencializado pela presença estratégica de patrocinadores, que não apenas viabilizam o evento, mas contribuem para a construção de narrativas afetivas. Ações de marca, produtos exclusivos e coleções temáticas transformam a memória do festival em objetos de desejo, criando uma relação de nostalgia e pertencimento que se estende para além dos dias de show. O Rock in Rio passa, assim, a existir também no cotidiano, na lembrança e na identidade do público.
Mais uma edição em 2026
Dentro desse processo de expansão contínua, a edição de 2026 marca um novo ponto de inflexão com a entrada do K-pop na Cidade da Música. A chegada do gênero representa a exploração de um mercado ainda subdimensionado no Brasil, apesar de sua força global e de uma base de fãs expressiva e engajada, sinalizando ao mercado que existe uma demanda significativa, latente e em crescimento. Em 2026, mais uma vez, o festival se posiciona como um termômetro do presente e um laboratório do futuro, mantendo-se fiel à essência que o tornou um dos maiores eventos culturais do mundo.
Tal relevância contínua se reflete no esgotamento do Rock in Rio Card em apenas 56 minutos, um indicativo claro da confiança do público na experiência oferecida pelo festival, mesmo antes da divulgação completa do line-up. Mais do que um indicador comercial, o recorde revela um comportamento cultural: o público compra a experiência por confiança na marca, antecipando-se às atrações e valorizando a promessa de vivenciar algo coletivo, plural e intensamente imersivo.
A expectativa de reunir cerca de 100 mil pessoas por dia transforma o festival em microcosmo social. O impacto extrapola o simbólico e atinge a economia local. O fluxo de visitantes impulsiona turismo, hotelaria, transporte e serviços, consolidando o evento como um motor econômico do Rio de Janeiro e como ativo estratégico de projeção internacional. Ao mesmo tempo, a transmissão televisiva e digital das edições ampliou o alcance do festival, levando performances históricas a milhões de lares e contribuindo para a formação de novas audiências.
Nomes para todos os gostos no line-up
No campo artístico, o Rock in Rio tem conseguido conciliar memória e atualização. A presença de ícones como sir Elton John, em momentos de grande carga histórica, convive com a inclusão de fenômenos contemporâneos como o K-pop, representado pelo Stray Kids, sinalizando uma curadoria que reconhece movimentos culturais globais sem perder sua identidade. Essa convivência entre legado e novidade é parte da fórmula que mantém o festival relevante.
A circulação de arquivos, vídeos, fandoms e comunidades online amplia e preserva a memória do evento, permitindo que gerações que não viveram as primeiras edições acessem e se reconectem com sua história. Esse processo de reapropriação contínua reforça o caráter do Rock in Rio como um arquivo vivo da cultura musical contemporânea, capaz de renovar públicos sem perder suas referências fundadoras.
Ao longo de sua trajetória, o Rock in Rio demonstrou capacidade singular de criar pontes entre passado e futuro. A presença de Elton em um de seus últimos grandes momentos antes da aposentadoria simboliza a força do festival como espaço de memória e celebração coletiva, enquanto a estreia do K-pop com o Stray Kids evidencia sua atenção constante às transformações do cenário global e às demandas de um público em permanente renovação.
Quatro décadas após nascer em um terreno improvisado, o Rock in Rio permanece como um dos maiores festivais do mundo não por se repetir, mas por compreender a música como movimento e a cultura como um organismo vivo, afirmando-se como um capítulo contínuo da história cultural brasileira e um espaço onde passado, presente e futuro coexistem.
Marcado para acontecer na Cidade do Rock, no Parque Olímpico do Rio de Janeiro, nos dias 4, 5, 6, 7 e 11, 12 e 13 de setembro, o Rock in Rio 2026 também confirmou nomes como Maroon 5, Demi Lovato, Gilberto Gil, Jamiroquai, Mumford & Sons, João Gomes e Orquestra Brasileira. O festival também trará novidades marcantes em sua estrutura. O Palco Mundo, por exemplo, vai receber uma cenografia totalmente inédita e, pela primeira vez, toda sua estrutura frontal será revestida por 2.400 m² de painéis de LED de altíssima definição, transformando o espaço em um grande painel visual.
