Coachella vira Broadway nas mãos de Sabrina Carpenter

Sabrina Carpenter sempre teve uma relação muito natural com a grandiosidade. Seja por meio de mega produções ou de uma estética visual pensada nos mínimos detalhes, é nato da artista esse senso de ambição.

Em 2024, quando passou pelo Coachella em um dos horários mais cobiçados do festival, já deixou no ar quase como uma promessa de que, quando voltasse, seria para assumir o posto de headliner. Hoje, esse retorno se concretiza no topo do line-up, provando que algumas eras realmente nascem para o horário nobre.

Almejando se consolidar como um dos shows mais comentados e talvez um dos mais memoráveis da história recente do festival, Sabrina Carpenter abriu seu set com uma experiência completamente cinematográfica, mergulhando de cabeça no imaginário Broadway. Carregando uma introdução em formato de filme preto e branco, temos uma vinheta com a participação de Sam Elliott (Matador de Aluguel, Tombstone, Motoqueiro Fantasma). Logo em seguida, a presença de carros clássicos da década de 60 espalhados pelo entorno do palco quebra a parede cinematográfica da abertura e transporta essa narrativa diretamente para o live show, enquanto a headliner passeia pelos corredores até a passarela principal coberta de estrelas, em alusão direta à Calçada da Fama.

A abertura ficou por conta de “House Tour”, o mais recente single da cantora. O palco foi estruturado ao que remetia ao morro de Hollywood, com casinhas ao redor e ela posicionada no topo. Na sequência, “Taste” entrou como se Sabrina estivesse gravando uma audição em self-tape e, de repente, o palco já era outro, simulando um set de gravação. E para “Manchild”… bem, os homens são cachorros, literalmente. É esse tipo de brincadeira visual que faz o show ganhar personalidade e conversa totalmente com o humor afiado que artista carrega na sua era atual de Man’s Best Friend.

Com “When Did You Get Hot”, a cantora teve sua primeira troca de figurino e surgiu sobre um enorme letreiro escrito SABRINAWOOD, refletindo ter transformado o Coachella no cenário do seu próprio filme ao vivo e, sinceramente, estamos todos assistindo da primeira fila.

Sabrina Carpenter faz o showbiz parecer fácil para ela. Tira de letra todas as oportunidades que recebe e, honestamente, faz uma bela limonada com cada uma delas, simplesmente parece especialista no assunto, e talvez não seja à toa a forma como embarca em uma era atrás da outra, com todas funcionando tão bem sem soar engessado. Existe uma segurança muito clara na maneira como ela entende o arco palco-narrativa-espetáculo, é como assistir alguém que realmente sabe brincar com a própria imagem sem perder o controle.

É a vez de Please Please Please! A popstar surge em um cenário representativo a um estúdio musical, bebendo completamente da iconografia de décadas passadas na forma como cada bloco se organiza visualmente. Ao performar pela primeira vez ao vivo “We Almost Broke Up Again”, Sabrina assume o comando da outra parede do estúdio e a faixa ganha forma no palco com naturalidade. Na sequência, saindo desse ambiente diretamente para um poste iluminado, somos imediatamente transportados para referências visuais que remetem cenas de La La Land. Dali, a cantora ainda encontra mais um novo espaço no palco ao entrar em um bar para cantar “Nobody’s Son”.

A experiência ganha ainda mais camadas com a participação de Susan Sarandon (Thelma & Louise), que entrega um longo monólogo de cerca de dez minutos. Corey Fogelmanis, colega de elenco de Carpenter em “Girl Meets World”, também fez uma participação especial como garçom em um cinema drive-in.

Se até aqui o show se comportava como cinema clássico, agora ele mergulha de vez no mundo musical. Em “Sugar Talking”, a artista mergulha de vez no lado mais performático e sensual do espetáculo ao dividir a cena com um dançarino em um dueto coreografado que remete diretamente à atmosfera de Dirty Dancing. Em “Feather”, o palco ganha outra camada visual quando as dançarinas entram com uma estética que flerta com o universo de Moulin Rouge!, muito brilho, teatralidade e uma energia burlesca. A faixa ainda ganha um novo arranjo musical mais sofisticado, com direito a um sample de Copacabana de Barry Manilow.

No ato final, o show assume de vez o estrelato de um musical pop. Will Ferrell surge como participação especial e sua presença funciona quase como a abertura de um novo capítulo. “Bed Chem”, “Juno” e, claro, “Espresso” mantêm a energia no ápice, antes de “Goodbye” e “Tears” conduzirem o grande desfecho. Um dos assentos dos carros retrô se levanta com a artista por cima e se transforma em uma fonte, permitindo que chafarizes de água comecem a sair do chão, deixando o deserto do Coachella completamente ensopado.

A headliner encerrou seu set dirigindo um dos carros pelos corredores da passarela, enquanto os créditos de cinema subiam pelo telão. É inspirador ao mínimio ver alguém se arriscando da forma como Carpenter faz, com um show sustentado por mais de oito estruturas e um storytelling muito bem amarrado, sem perder a disciplina e deixar a direção criativa dissipar, é disso que um headliner precisa.

Inegável que vimos história acontecer no palco ontem. Toda a megaprodução artística e envolvente construída ao redor da cantora, dominando o primeiro final de semana em Hollywood e trazendo atos teatrais para o show como se a Broadway tivesse sido transportada para o deserto, foi simplesmente fascinante.

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