Holly Humberstone chega ao Coachella com “Cruel World”

Foto: divulgação

Holly Humberstone ainda não é uma artista que está na ponta da língua de muitos, mas quem sabe agora não seja o momento em que seu nome comece a tomar um novo ritmo. A cantora britânica lançou seu segundo álbum, Cruel World, nesta sexta-feira (10) e se apresentará hoje mesmo no palco Gobi do Coachella.

Foi, de fato, uma escolha ousada lançar o trabalho de estúdio justamente no dia de uma das performances mais importantes de sua carreira até aqui, mas talvez seja esse destemor que faz a nova era de Holly começar com tanta personalidade. Nos últimos anos, ela vem construindo sua trajetória em espaços diversos.

Humberstone já passou pelo Wembley Stadium abrindo shows de Taylor Swift na “The Eras Tour” e também de Olivia Rodrigo. Até então, sua estética visual orbitava um lugar mais familiar dentro do pop, mas a nova fase parece abraçar uma identidade mais sombria e cinematográfica. Quem observa de fora pode nem imaginar que, por trás da atual camada visual, existe uma voz tão doce e emocionalmente precisa.

A produção parte do trabalho de Rob Milton (The 1975, Rose Gray) e vem de forma mais contida. Dá para sentir que existe uma maturidade muito forte atravessando o álbum, quase como um ponto de virada na carreira e na vida da cantora.

“So It Starts” abre o material com um banjo que chama atenção logo de cara, enquanto o arranjo vai ganhando corpo aos poucos no interlúdio. Completamente instrumental, a música faz conexão direta com a produção de “Make It All Better”, faixa que vem sequência. Com um uso bem marcado de sintetizadores, ela já entrega a potência do que o álbum está prestes a introduzir e funciona quase como um convite para entrar nesse universo sonoro. Holly Humberstone, ao que parece, não tem medo de sonhar grande.

A cantora apostou tudo em um disco que carrega características do drum and bass e de um pop melódico eletrônico, mas sem deixar de voltar às raízes de suas principais influências, como Phoebe Bridgers e HAIM. “To Love Somebody” vem com esse lado mais familiar e acolhedor, enquanto “Cruel World”, a faixa-título do álbum, traz uma sonoridade muito próxima de MUNA e The Aces, com baixos mais carregados e vocais suaves que flutuam sobre a produção.

É possível notar a presença de elementos percussivos ao lado da bateria, enquanto o sintetizador entra com um toque quase angelical, deixando tudo ainda mais atmosférico.

“Die Happy” chega mais calma, porém ainda muito potente. Mesmo em uma faixa eletrônica, se ouve o uso de lapsteel para enriquecer ainda mais as texturas, mesclando instrumentações típicas de gêneros diferentes em um só som. Após abrir mão de uma sonoridade mais distorcida, a artista abraça de vez a dualidade agridoce entre a euforia e a melancolia do sentir.

Parece que ela se sente mais à vontade e confortável dentro do que se propôs a fazer, tendo finalmente encontrado sua essência. Vale pontuar a estética sombria das capas do álbum, que contrasta de forma muito bonita com a sonoridade mais alegre das músicas, quase como se o visual e o som conversassem por contraste. “White Noise” é uma balada cintilante sobre perceber em uma noite fora de casa que você de repente não tem mais aquela pessoa ao seu lado.

O título carrega o nome de sinais sonoros que contêm todas as frequências na mesma potência, um ruído contínuo usado muitas vezes para mascarar sons externos e até ajudar a dormir. É quase como se tudo em que ela conseguisse se concentrar fosse justamente esse ruído branco presente nos próprios pensamentos, abafando o mundo ao redor e transformando a ausência em som. Tal leitura, claro, abre espaço para interpretação.

Talvez “Lucy” seja a faixa que mais se desloque no conjunto. Mesmo que a lírica esteja em acordo com a temática, o dedilhado acústico não é algo que soe coeso. “Red Chevy”, depois, vem com uma voz mais agressiva emocionalmente no refrão, com uso simbólico de saxofone e metais no final da musica. No entanto, “Peachy” mergulha nas incertezas das decisões e traz a frase que resume a crise dos 20, algo que, aparentemente, chega até mesmo para popstars.

A música encapsula muito bem a sensação de não se sentir uma pessoa confiável por ainda estar tentando entender quem se é, partindo de uma forma muito confessional. “Blue Dream” se mantém no dream pop, com texturas de contrabaixo distorcidas e muito bem compassadas. O início da faixa lembra bastante a forma como Dijon e Mk.gee vêm trabalhando juntos, com uma produção quase sensorial.

As cordas retornam na faixa de encerramento, “Beauty Pageant”, que ainda sampleia a canção de amor francesa “Le Coup D’soleil”. A música lembra “emails i can’t send” de um jeito bem peculiar e é quase como se fosse cantada diretamente para ela mesma diante de um espelho, encarando seus próprios reflexos e a imagem que colocam para ela enxergar.

Podemos dizer que Holly Humberstone tem de tudo para arrasar no seu set do Coachella, pois, definitivamente, trouxe um álbum ambicioso e impactante. O festival, aliás, tem servido muito como vitrine para performances grandiosas e também para espelhar artistas com uma proposta muito clara. Esperamos ouvir ainda mais sobre Cruel World ao longo do ano.

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