Poucas bandas do século 21 conseguiram transformar simplicidade em grandeza com tanta consistência quanto o The Lumineers. Liderado por Wesley Schultz e Jeremiah Fraites, o grupo construiu uma trajetória que vai além de sucessos radiofônicos. Trata-se de uma evolução estética e emocional que acompanha as transformações do próprio folk rock moderno, equilibrando a crueza das apresentações intimistas com a expansividade das arenas globais.
Aliás, o grupo retornará ao Brasil nesta semana com sua nova turnê, a “Automatic World Tour”, trazendo ao público brasileiro toda a sensibilidade do disco Automatic (2025) e o som marcante que consolidaram a banda como um dos grandes nomes do folk contemporâneo. Conhecidos por canções intimistas e letras carregadas de emoção, Schultz e Fraites prometem apresentações que transitam entre momentos delicados e explosões catárticas.
A passagem pelo país inclui três apresentações especiais: no dia 22 de abril, no Vivo Rio, no Rio de Janeiro; no dia 24, na Live Curitiba, em Curitiba; e no dia 25, na Suhai Music Hall, em São Paulo. Em cada uma das cidades, a expectativa é de casas cheias e uma atmosfera calorosa, marcada pela conexão direta entre banda e plateia. Confira abaixo alguns motivos para não deixar de comparecer aos shows do Lumineers por aqui!
Origens: minimalismo como linguagem
A história começa em 2005, em Nova York. Na contramão de uma cena dominada por produções digitais polidas, Schultz e Fraites apostavam em arranjos crus, centrados em piano, violão e percussão simples, escolha que era tanto sonora como conceitual. Sob nomes como Free Beer e Wesley Jeremiah, a dupla experimentava sonoridades até que, em 2010, decidiu focar integralmente na música e se mudar para Denver, no Colorado.
Tal mudança foi fundamental para o DNA da banda. Longe da saturação do mercado nova-iorquino, eles encontraram espaço para desenvolver uma identidade baseada na honestidade emocional e na narrativa direta. Em 2011, o lançamento de um EP independente atraiu a atenção da gravadora Dualtone Records, marcando o início definitivo de sua ascensão.
O estouro mundial e o paradoxo de “Ho Hey”
O reconhecimento internacional veio em 2012 com o álbum homônimo The Lumineers. O single “Ho Hey” se tornou um fenômeno global, impulsionado por sua estética de comunidade, que contrastava com uma letra que carrega um sentimento de deslocamento. Outras faixas, como “Stubborn Love”, consolidaram o sucesso e renderam à banda duas indicações ao Grammy em 2013.
Nesse período, o alcance do grupo expandiu-se para além dos palcos tradicionais, colaborando com Jennifer Lawrence na música “The Hanging Tree” para a trilha de Jogos Vorazes em 2014. O sucesso, no entanto, trouxe o desafio de como evoluir mantendo a essência das confissões íntimas que os tornaram famosos.
Consolidação e expansão estética
A resposta veio com Cleopatra (2016), álbum que ampliou o universo narrativo da banda. Estreando no topo da Billboard 200, o disco abandonou parcialmente a estética lo-fi do início em favor de composições mais cinematográficas. Faixas como “Ophelia”, “Cleopatra” e “Sleep on the Floor” exploram personagens e jornadas, tratando as canções quase como contos musicais.
Em 2018, a saída da violoncelista Neyla Pekarek para seguir carreira solo simbolizou uma mudança estrutural. A partir daí, Schultz e Fraites assumiram ainda mais controle sobre a direção artística como núcleo criativo oficial, o que se refletiu em projetos futuros visivelmente mais conceituais e coesos.
O folk como narrativa de trauma e a energia do presente
Com o álbum III (2019), a banda atingiu seu ponto mais ambicioso. O disco foi estruturado como uma obra dividida em capítulos, explorando temas densos como vício e ciclos familiares. Musicalmente, houve mais espaço para experimentação e instrumentação expandida, criando uma experiência contínua que se afasta da ideia de singles isolados.
Em reação à densidade do trabalho anterior, BRIGHTSIDE (2022) trouxe uma energia mais direta, urgente e próxima do rock, evidente em canções como a faixa-título e “A.M. RADIO”. Em 2024, o grupo reafirmou sua potência ao vivo com Live From Wrigley Field e, no ano seguinte, lançou seu quinto disco, Automatic.
A trajetória de duas décadas culmina na “The Automatic World Tour”. Ao longo dos anos, o The Lumineers mostrou que crescer não significa abandonar origens, mas reinterpretá-las. É justamente tal capacidade de transformar o simples em algo profundamente humano que mantém o grupo relevante e em constante ascensão no cenário global.
