Foto: divulgação
Após um ano afastado dos holofotes em razão do falecimento de seu pai, Jão declarou, na última quinta-feira (23), que era o momento de dar o início a um novo capítulo em sua discografia. Memórias Póstumas, quinto álbum do cantor que também anunciou sua próxima turnê, inaugura um dos capítulos mais genuínos de sua carreira.
A divulgação veio acompanhada por um curta-metragem cinematográfico que antecipa a identidade visual do projeto e deixa evidente que a nova fase nasce de um processo de elaboração do luto, em que a música deixa de ser apenas um espaço de confissão para se tornar também um berço para permanência.
Em entrevistas recentes, o cantor américo-brasiliense revelou que o pai foi um dos maiores incentivadores de sua trajetória artística e que retornar à música após um breve afastamento virou uma forma de preservar o orgulho que ele sempre demonstrou pelo filho.
O teaser, direto, retrata o luto a partir da banalidade do cotidiano nomeado traiçoeiro, mostrando que a dor não interrompe o mundo ao redor, muito menos o amor, mas modifica o jeito como ele passa a ser percebido.
“Se o amor não escolhe pra onde vai, aqui eu escolho”. O texto narrado conduz tal reflexão em que a música deixa de ser somente linguagem e passa a operar como um lugar onde o afeto encontra continuidade mesmo na finitude.
O próprio título, inspirado na obra de Machado de Assis (1880), é meramente significativo, mas a construção maestrizada por meio de um relato honesto sobre perda reconfigura a obra. Tradicionalmente, “memórias póstumas”, designa relatos publicados após a morte de seu autor, narrativas que atravessam a ausência para firmar vivência.
Em vez de apenas escrever sobre quem partiu, o cantor parece construir parte do disco como se fosse observado por essa ausência, deslocando o ponto de vista da narrativa para seu pai, fora do plano físico, relatando os cenários que Jão descreve. Durante a audição ao vivo do álbum, o artista comentou que uma das maiores dificuldades do processo foi transcrever sentimentos tão particulares em palavras. A solução surgiu justamente na adoção de outras perspectivas narrativas.
Há momentos em que a construção se firma na delicadeza narrativa sobretudo pela maneira como silêncio e palavra ocupam o mesmo peso dramático. Em outros, o disco revela que todas as faixas seguem uma estrutura tradicional. Algumas canções priorizam a oralidade, outras deixam que os arranjos conduzam a narrativa, como se texto e música ocupassem papéis equivalentes na construção emocional do álbum.
A própria organização da tracklist parece acompanhar essa lógica. Ao invés de estabelecer uma progressão linear, Jão alterna diferentes estados emocionais, aproximando o ouvinte da desordem que caracteriza o processo do luto. A sequência das canções avança, retrocede e muda de direção constantemente, sugerindo que a perda jamais obedece a uma cronologia previsível.
O disco compreende que lembrar também significa revisitar, interromper, retornar e recomeçar, elaborado por uma montanha-russa de sentimentos que categoriza o luto como algo não-linear, fugindo de uma sequência fixa.
“Catedral”, faixa que abre o disco, conta com uma participação vocal “silenciosa”de Ana Caetano, da dupla ANAVITÓRIA, teclas por Gianlucca Azevedo e engenharia de gravação assinada por Gabriel Duarte. A canção constrói uma atmosfera etérea sustentada por camadas vocais e texturas ambientais que, aos poucos, desembocam em uma estrutura pop.
Liricamente, ela sintetiza uma das sensações mais contraditórias do luto: perceber que um dia ruim parece definitivo enquanto o restante do mundo continua seguindo seu curso normalmente, até que, inevitavelmente, a própria existência encontra uma maneira de prosseguir.
Em “O Amor”, a delicadeza se torna o elemento central. A introdução utiliza um voice memo do pai de Jão, transformando um simples registro cotidiano em um dos momentos mais comoventes do projeto. “Aurora”, “Jabuticabeira” e “Passeios Noturnos” recuperam parte da energia percussiva e vibrante que marcou trabalhos anteriores, equilibrando a densidade com construção sonora mais expansiva.
“Literatura”, a composição parte da ideia de que escritores possuem o privilégio de alterar o destino de seus personagens sempre que desejarem, enquanto a vida real não oferece esse mesmo controle. O cantor compreende no disco que a arte pode, ao menos por alguns instantes, oferecer um lugar onde a ausência continua sendo capaz de existir.
“Jõao” representa um dos gestos mais incomuns da discografia de Jão. Pela primeira vez, o cantor interpreta uma composição assinada integralmente por Pedro Tófani, seu namorado e diretor criativo. A balada aposta em uma interpretação contida, marcada por notas agudas e uma emissão quase sussurrada, que acentua a fragilidade presente na letra.
Entre inseguranças e falhas, a lírica soa como uma confissão amorosa construída a partir das fragilidades de quem teme não saber amar o suficiente. Embora o quinto disco preserve uma identidade musical bastante reconhecível, essa continuidade também evidencia um de seus poucos limites. Existe uma assinatura estética estabelecida, construída ao longo da trajetória de Jão, mas, em determinados momentos, a obra parece confortável demais dentro das fórmulas que o próprio artista estabeleceu.
Ainda assim, o conforto não diminui a força do álbum, que encontra justamente na maturidade de sua linguagem um dos seus maiores atributos. Definitivamente, se trata de um disco demarcado pela poesia. Memórias Póstumas talvez seja um dos trabalhos mais refinados tecnicamente dentro da discografia do cantor, especialmente pelo cuidado de sua mixagem e pela construção sonora minuciosa.
Em um momento em que muitos lançamentos parecem ser pensados quase diretamente a partir da lógica de uma megaturnê, como aconteceu com o antecessor SUPER (2023), Jão apresenta uma proposta mais silenciosa e introspectiva. O álbum se apoia em arranjos orquestrais, metais, cordas e teclas, enquanto mantém uma percussão sutil que contribui para a atmosfera delicada das canções.
Ouça Memórias Póstumas logo abaixo!
