Foto: Lucca Adams
Uma das atrações do C6 Fest 2026, o Wolf Alice confirmou por que cultiva uma base de fãs tão apaixonada, entregando uma apresentação magnética e envolvente no Parque Ibirapuera dentro da programação do evento, realizado entre os dias 21 e 24 de maio.
A vocalista Ellie Rowsell assumiu o palco da Tenda MetLife com vocais que transitaram entre a delicadeza e a potência, sempre acompanhados pelo coro entusiasmado dos fãs espalhados por todo o espaço. Na execução de “Lipstick on the Glass”, a precisão dos sintetizadores combinada ao baixo pulsante de Theo Ellis conferiu à faixa uma atmosfera densa e levemente gótica.
O final do set ficou por conta da já consagrada “Don’t Delete The Kisses”, presente nas trilhas sonoras de Heartstopper (Netflix), Gen V (Prime Video) e Gaslit (Starz). A canção reforça a capacidade da banda de criar hinos geracionais sem abrir mão de sua identidade artística. Ao lado do guitarrista Joff Oddie e seus companheiros de banda, Ellie entregou uma performance coesa, segura e tecnicamente irrepreensível.
O encerramento da programação de sábado (23) na Tenda MetLife ficou sob responsabilidade de Matt Berninger. Dono de uma presença de palco singular, o cantor conquista o público com naturalidade. Entre momentos de intimidade e explosões emocionais, Berninger apresentou um espetáculo teatral e deliciosamente imprevisível.
Logo nas primeiras músicas, o veterano desceu até a plateia para cumprimentar fãs, autografar discos e cantar lado a lado com o público, gesto que repetiria diversas vezes ao longo da apresentação. Consolidando sua trajetória solo, Matt exibiu toda a versatilidade de sua voz grave, alternando entre melodias profundas, resmungos e sussurros dramáticos que ampliavam a carga emocional de canções como “Bonnet of Pins” e “One More Second”.
Também houve espaço para “Gospel”, um dos clássicos do The National, além da participação especial dos irmãos Aaron e Bryce Dessner. Juntos, eles levaram a plateia ao delírio com “Terrible Love”, interpretada por Matt em meio ao público, cantando a plenos pulmões. Foi uma apresentação capaz de marcar a memória de todos que estiveram presentes naquela noite. Quem esperava apenas mais um show encontrou uma experiência artística completa.
Em outro show, quem ainda não conhecia Benjamin Clementine provavelmente saiu dali convertido em admirador. Descalço e acompanhado por uma cenografia minimalista, o cantor e pianista britânico ocupou cada centímetro do palco da Tenda MetLife com sua presença imponente. Acompanhado apenas por seu piano de cauda e um coro de apoio, o artista construiu uma atmosfera que remetia a uma ópera contemporânea e vanguardista. A impressionante extensão vocal do artista transitava com fluidez entre registros de tenor dramático e barítono, revelando domínio técnico e expressivo raramente vistos.
Em “Nemesis” e “I Won’t Complain”, demonstrou maestria ao utilizar o silêncio como recurso narrativo, sustentando pausas que mantinham a plateia em suspenso, presa a cada nota. Clementine reafirmou seu status como um artista completo, capaz de transformar performance em manifestação artística. Os aplausos calorosos ao final da apresentação foram a confirmação disso.
Em sua estreia no Brasil, a francesa Oklou trouxe ao palco uma sonoridade profundamente conectada à estética digital contemporânea. Com iluminação difusa em tons pastel, movimentos delicados e uma flauta iluminada como elemento cênico, construiu um ambiente intimista e contemplativo.
Em sua proposta artística, o autotune deixa de ser mero recurso técnico para se tornar instrumento estético, dialogando com a tradição de artistas como Caroline Polachek e Imogen Heap. Faixas como “Galore” e “God’s Chariots” surgiram como verdadeiras orações digitais.
Além da performance refinada, a artista demonstrou carinho pelo público brasileiro ao se comunicar em português durante o show. As batidas minimalistas e os sintetizadores etéreos funcionaram como um respiro coletivo, preparando o terreno para o encerramento da noite.
O aguardado encerramento da Tenda MetLife ficou nas mãos de Lykke Li. Apostando em uma estética monocromática marcada por sombras, fumaça e tons de vermelho intenso, a sueca criou uma atmosfera tão melancólica quanto hipnotizante.
A apresentação transformou a dor amorosa em potência estética, explorando a vulnerabilidade como força criativa. Ao longo do espetáculo, a cantora demonstrou sensibilidade e entrega, recebendo em troca o apoio incondicional de seus fãs.
Admiradora declarada de Caetano Veloso, Lykke emocionou o público ao interpretar “Sozinho” em português, evidenciando o cuidado e a dedicação com que preparou sua passagem pelo país. Sem receio de reinventar o próprio repertório, apresentou uma versão mais pesada e sombria de “Sex Money Feelings Die”, ampliando ainda mais a intensidade da canção.
O encerramento veio com “I Follow Rivers”, transformada em uma experiência quase ritualística por meio de uma nova roupagem tribal e obscura, perfeitamente alinhada à voz sensual e marcante da artista.
