Foto: @alexseyreyes
No Faixa a Faixa, trouxemos o último projeto solo de Ryan Beatty em celebração aos três anos do disco após marcar uma virada sonora e emocional na trajetória do artista.
Calico é um daqueles álbuns que chegam de surpresa e se revelam um verdadeiro banquete sonoro. Mas, olhando para a trajetória de Ryan Beatty, talvez isso nunca tenha sido exatamente uma surpresa. Existe uma maturidade artística muito clara no álbum, e parte disso certamente vem do caminho que o cantor percorreu nos últimos anos em sua colaboração direta com o BROCKHAMPTON, experiência que parece ter aprofundado ainda mais sua sensibilidade como produtor.
É curioso pensar como sua trajetória começou tão cedo sob os holofotes do pop e, ainda assim, o levou a um lugar artístico tão sofisticado. Hoje, o artista tem o nome ligado a alguns dos trabalhos mais relevantes da música recente como compositor em Cowboy Carter, de Beyoncé, vencedor de Álbum do Ano no Grammy (2024).
Gravado e produzido na Califórnia ao lado de Ethan Gruska (Phoebe Bridgers, Shawn Mendes) Calico aposta em uma simplicidade profundamente sofisticada, com arranjos orgânicos, texturas acústicas e camadas sutis que ampliam o peso emocional das composições sem nunca sufocá-las. Existe uma delicadeza muito bem calculada na forma como o disco se constrói, permitindo que a vulnerabilidade da escrita de Beatty permaneça sempre no centro da experiência.
“Ribbons” abre o disco com uma melancolia quase palpável, documentada em uma noite sóbria na Califórnia ao amanhecer e as reflexões acerca do estrelato com uma produção introspectiva co-produzida por Justin Vernon (pseudônimo de Bon Iver), que funciona quase como um fluxo de consciência, buscando algum tipo de compreensão no meio das próprias contradições. A mixagem segura essa atmosfera com maestria na estensão que ocorre por mais de um minuto apenas na instrumental, permitindo que as camadas respirem e sejam sentidas da forma provocativa de Beatty.
No entanto, a sonoridade segue um caminho mais contido, guiado principalmente pelo violão, um movimento que se distancia da energia mais expansiva de trabalhos prévios.
“Bruises Off The Peach” vem com um toque sobre demonstrar todas as suas facetas e ainda aparentar não ser o suficiente para o outro, mas entender que isso é separado de quem voce é. A metáfora central de “cortar os machucados do pêssego” traduz bem essa ideia de remover dores e imperfeições de uma relação enquanto se preserva o que ainda existe de valor, e entender que, mesmo que voce retire algumas parcelas na base da invisibilidade, elas ainda sombream.
“Cinnamon Bread” marca uma inflexão sutil na paisagem sonora de Calico, deslocando a produção para um terreno mais texturizado e orgânico. As cordas de violão se sobrepõem em camadas que ampliam a densidade da faixa, enquanto o arranjo cresce com delicadeza, sem romper sua natureza intimista. Liricamente, Ryan Beatty se debruça sobre a honestidade do amor em sua forma mais crua, reconhecendo imperfeições sem permitir que elas desestabilizem o vínculo construído. O piano surge como elemento de apoio, quase invisível em um primeiro momento, mas essencial na condução emocional que culmina na entrada dos violinos.
“Andromeda” amplia esse olhar para um campo mais abstrato, explorando a distância emocional como eixo central da narrativa. A faixa se ancora na metáfora da galáxia para traduzir a sensação de algo que existe, mas permanece fora de alcance, criando um paralelo entre o nostálgico e o real. Ao longo da canção, o artista revisita recaídas emocionais e impulsos quase involuntários, como o desejo de retomar contato em momentos de fragilidade.
Ouça Calico logo abaixo!
