Foto: Cintia Mello
Poucos festivais conseguem reunir entretenimento, ativismo, relevância cultural e momentos históricos em uma única noite. O Global Citizen Rio 2026 conseguiu. Realizado na Enseada de Botafogo, tendo o Cristo Redentor iluminando um dos cenários mais emblemáticos do planeta como pano de fundo, o evento estrelado por Lauryn Hill marcou a entrada definitiva do Rio de Janeiro no circuito de uma das maiores plataformas globais de mobilização social da atualidade.
O Global Citizen nasceu em 2012, no Great Lawn do Central Park, em Nova York, com uma proposta revolucionária: transformar fãs em agentes de mudança. Em vez de simplesmente adquirir ingressos, o público é incentivado a participar de campanhas sociais, apoiar causas humanitárias e se engajar em ações voltadas ao combate à pobreza extrema, à promoção da educação, à igualdade de gênero e à justiça climática.
Ao longo de sua trajetória, o movimento reuniu nomes como Beyoncé, Jay-Z, Coldplay, Shakira, Metallica e Rosalía, além de diversos líderes mundiais, consolidando-se como uma das iniciativas culturais mais influentes do século XXI.
O Rio de Janeiro agora entra para a história do Global Citizen. A edição carioca aconteceu dentro da programação da Rio Nature & Climate Week e reuniu milhares de pessoas em uma noite dedicada à sustentabilidade, à cultura e ao poder transformador da música.
Com apresentação de Giovanna Ewbank e Bruno Gagliasso, o evento equilibrou informação, entretenimento e conscientização social, reforçando o papel do Rio como protagonista das discussões globais sobre clima e desenvolvimento sustentável. Quando Lauryn Hill subiu ao palco que a noite ganhou contornos verdadeiramente históricos.
Poucos artistas possuem uma trajetória tão singular quanto ela. Integrante dos Fugees ao lado de Wyclef Jean e Pras Michel, ela ajudou a redefinir os rumos do hip-hop nos anos 1990. Em seguida, a rapper e cantora lançou o clássico The Miseducation of Lauryn Hill (1998), álbum que vendeu mais de 20 milhões de cópias, conquistou cinco Grammys e permanece como uma das obras mais importantes da música contemporânea.
Canções como “Doo Wop (That Thing)” e “Ex-Factor” atravessaram gerações e continuam influenciando artistas em todo o mundo. Mesmo com tamanho sucesso, Lauryn optou por um caminho diferente da maioria das superestrelas. Enquanto muitos artistas ampliavam sua exposição midiática, Hill escolheu preservar a vida pessoal e dedicar-se à espiritualidade, à maternidade e à busca por independência artística.
Vale destacar que Lauryn Hill é mãe de seis filhos. Cinco deles são filhos de Rohan Marley, filho de Bob Marley, o que faz com que seus descendentes carreguem diretamente o legado de uma das famílias mais influentes da história da música. Um dos momentos mais emocionantes da noite ocorreu quando Lauryn dividiu o palco com membros de sua própria família; no caso, os filhos Zion e YG Marley.
Ao lado de Wyclef Jean, ela celebrou os 30 anos do álbum The Score (1996), obra-prima dos Fugees responsável por sucessos como “Ready or Not”, “Fu-Gee-La” e a inesquecível versão de “Killing Me Softly”. Após alcançar o topo da indústria musical, ela enfrentou pressões criativas, a perda da privacidade e conflitos com os mecanismos tradicionais do mercado fonográfico. Seu afastamento dos holofotes nunca significou abandono da arte, pelo contrário.
Lauryn seguiu construindo uma carreira pautada pela liberdade criativa e pela autenticidade, características que inspiraram gerações de artistas, incluindo Rihanna, Beyoncé, Alicia Keys, Kendrick Lamar, Drake, H.E.R. e Janelle Monáe.
Rihanna, inclusive, já declarou em diversas ocasiões que considera The Miseducation of Lauryn Hill uma de suas maiores referências artísticas, admirando especialmente a forma como Lauryn conciliou identidade, independência e inovação musical.
O Global Citizen Rio 2026 demonstrou que grandes eventos podem ser muito mais do que entretenimento Ao reunir música, causas sociais, sustentabilidade e algumas das figuras mais influentes da cultura mundial, o festival reforçou a mensagem de que a arte continua sendo uma das ferramentas mais eficazes para conectar pessoas, promover mudanças e inspirar novas gerações.
Texto por César Oliveira
