Foto: Thaís Monteiro
O Sepultura transformou o penúltimo show de sua passagem pelo Brasil em uma apresentação especial neste sábado (5), no Palco Mundo do Rock in Rio. Em meio à turnê de despedida “Celebrating Life Through Death”, a banda apostou em repertório dedicado exclusivamente à fase iniciada em 1998, quando Derrick Green assumiu os vocais após a saída de Max Cavalera, em 1996.
A escolha deu ao show um caráter inédito. Ao longo de quase três anos de turnê, o Sepultura tem revisitado diferentes momentos de sua trajetória, mas nunca havia se dedicado exclusivamente aos materiais gravados com Green. Segundo Andreas Kisser, a ideia era pedido antigo dos fãs, mas que o grupo ainda não havia encontrado a oportunidade certa para colocar em prática, justamente para evitar uma divisão tão marcada entre as diferentes fases da carreira.
O Rock in Rio, dessa forma, ofereceu o cenário ideal para a experiência. Por se tratar de um festival, com uma apresentação naturalmente mais enxuta do que os shows da turnê, a banda conseguiu explorar o recorte de sua história sem que a decisão representasse uma ruptura definitiva com o restante do repertório. No palco, Andreas chegou a apresentar a performance como uma experiência exclusiva.
A consequência de tal escolha, porém, foi deixar de fora algumas das músicas mais emblemáticas da história do Sepultura. Clássicos dos álbuns Chaos A.D. (1993) e Roots (1996), trabalhos de estúdio fundamentais para a consolidação internacional da banda, não apareceram no setlist. Assim, faixas como “Roots Bloody Roots”, “Ratamahatta”, “Arise”, “Territory” e “Attitude”, presentes na atual turnê de despedida, ficaram de fora da apresentação no festival.
A ausência, no entanto, não pareceu incomodar o público. Com Derrick há cerca de 25 anos à frente do Sepultura, os fãs responderam com a mesma intensidade que se espera de um show da banda. Entre gritos, headbanging, sinalizadores e rodas punk, a plateia tornou a apresentação um dos momentos mais intensos da noite. Quando Andreas pediu “a maior roda de todas”, os fãs correram para a área diante do Palco Mundo e aumentaram ainda mais o caos organizado que tomou conta da Cidade do Rock.
O repertório percorreu diferentes momentos da trajetória construída pelo Sepultura com Derrick. Discos como Against (1998), Nation (2001), Roorback (2002) e Machine Messiah (2017) estiveram representados, mostrando que a chamada “era Derrick” possui identidade própria e uma quantidade significativa de material capaz de sustentar uma apresentação inteira.
A banda também reservou espaço para sua produção mais recente. O EP de despedida The Cloud of Unknowing, lançado em 2025 e composto por quatro faixas, foi apresentado na íntegra. Entre as novidades, “Sacred Books” fez sua estreia nos palcos. O setlist ainda contou com “What I Do!”, responsável por abrir a apresentação, além de “Choke” e “Means to an End”.
O show ainda evidenciou a sintonia da formação atual. A banda demonstrou estar à vontade no palco, enquanto a energia do baterista americano Greyson Nekrutman, de apenas 24 anos, chamou atenção durante a apresentação. Mesmo tendo entrado no grupo já em sua fase final, o músico mostrou disposição e presença de palco, contribuindo para a intensidade do espetáculo.
No fim, o Sepultura encontrou no Rock in Rio uma maneira diferente de olhar para a própria história. Sem recorrer aos maiores clássicos da era Cavalera, a banda colocou no centro do palco uma trajetória que já dura mais de duas décadas com Derrick Green, e mostrou que esse período também conquistou seu espaço definitivo entre os fãs.
